Tempo de descanso

Por: Marco Antonio Soares

Quando pequeno, olhava de baixo para cima o corpo do pai e, em segundos, escalava o homem, que ele acreditava muito alto. Aconchegado aos ombros fortes, tendo como rédea os negros cabelos, via o braço musculoso apontar-lhe as mais belas paisagens. A criança não sabia que, enquanto o braço paterno descortinava imagens coloridas aos olhos do filho, todo o cinza dos sofrimentos e das amarguras lhe era omitido.

Cansado da brincadeira, ele exigia do seu gigante o chão e, em segundos, solicitava a presença do craque de futebol, que, incansável, ensinava passes, tomava dribles, tornava-se goleiro, que se alegrava em sofrer gols, abraçando com carinho o pequeno jogador adversário.

Disfarçando sua pressa, o tempo juntou segundos, organizou minutos, amealhou horas, forjou anos. O moço, agora, olha a figura do pai de cima para baixo, não acredita em tamanha fragilidade.Apieda-se dos ombros curvados, passeia os olhos nos cabelos brancos, tenta erguer a mão para garimpar alguma jovialidade naquela mina de prata, desiste.

Os olhos do rapaz observam de soslaio toda amargura e sofrimento que aquelas rugas não conseguem esconder.

É tempo de descanso para o antigo herói, que contempla com paciência as rosas do jardim fronteiro à casa. Vê que, após exibirem toda a sua beleza ao mundo, as pétalas voltam para suas antigas raízes.

Um sorriso maroto aflora no rosto do pai.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras