O desprazer de desmanchar

Por: Sônia Machiavelli

138455

Durante dois meses Luiz Cruz de Oliveira e eu, mais parceiros sonhadores como Regina Bastianini, Eny Miranda, Karina Gera e Renzo Covas, estivemos mergulhados de cabeça no projeto que hoje chega ao seu final. Foram oito semanas de muito trabalho para oito dias de visitação pública. Neste tempo, a escola Ave, Palavra, generosamente cedida por Edna Bastianini e Lucileida Castro, transformou-se em espaço para mostrar elementos do imaginário que permearam ficção e poesia nos livros ali exibidos. Foi também o lugar onde estiveram reunidos, numa mesma sala, através de seus livros, pela primeira vez, e, espero, não pela única vez, todos os escritores que viveram em Franca desde o começo do século passado. Esta é talvez a parte mais importante da história desta exposição que virou mostra e enfim se firmou como instalação.

Instalação? Sim. Ainda sem definição exata, escapando das rotulações únicas, por princípio experiência singular, ela é um fazer artístico que vem ganhando força desde o final dos anos 20, com nomes seminais como Duchamps e seguidores de diferentes correntes, de Maria Abramovic a Chen Zen; de Franz Krajcberg a Helio Oiticica. A primeira instalação de que se tem notícia oficial foi a Casa Merz, apartamento do poeta e artista plástico Kurt Schwitters, transformado por ele em obra de arte na cidade alemã de Hannover em 1927. Sintetizando, uma instalação organiza elementos em um ambiente de tal forma que a disposição deles no espaço provoca estímulos diversos no espectador. Ela é uma obra de arte que existe enquanto se mantém.

Foi pensando nestes termos, em provocar emoções nos visitantes, despertá-los para a natureza da ficção e da poesia, aproximá-los da criação literária, que reuni os motivos que me conduziram ao longo de quatro décadas de escrita, e que, só percebi na véspera da inauguração, são na verdade apenas três: infância, lar e mitologia. De forma mais objetiva, como é pertinência de sua práxis e de sua personalidade, Cruz fez o mesmo no lugar que lhe foi destinado: descreveu com objetos – que variaram de uma folha de sulfite a um simulacro de ribeirão – sua trajetória de escritor desafiado pelos mistérios da criação que se cristalizam em letras na página em branco.

Foram preâmbulos, estas salas, para algo maior na medida em que pensamos a literatura como manifestação de muitos em pertencimento a um lugar também físico. No belo casarão da Rua Campos Salles, 1510, Luiz Cruz de Oliveira ergueu a emblemática Sapataria do Livro. Ali reunidas em caixas de sapato estão as obras de mais de 200 escritores francanos. Como definiu com clareza e estilo Maurício Buffa, em texto desta semana aqui no Comércio, as analogias com a cidade que se construiu e se tornou famosa com o calçado, impuseram a essa sapataria singular implícitos sentidos relacionados ao ato de ler. E ler ali, naquela sala, seria como experimentar um sapato, olhar a forma, avaliar a aparência exterior e a interior, apreciar o conforto, acusar algum incômodo, trocar de número ou de livro – são muitas as possibilidades. O grande trabalho de Luiz Cruz, iniciado com a pesquisa para o livro Esboço de história da literatura francana, completou-se ali belamente.

Acredito que a maioria dos que responderam presente ao convite da escola Ave, Palavra entendeu a dimensão da proposta. Alguns expressaram surpresa ao saber que a instalação seria desfeita. Mas o prédio acolhe uma escola que retoma seu ritmo normal de aulas na próxima semana. Os objetos reunidos num contexto estético específico retornarão a seus lugares de origem, onde despertarão outras leituras. Os livros serão recambiados a estantes domésticas ou serão acondicionados em algum espaço disponível. Todo o conjunto que recriou livros e desvelou o processo de criação literária se desmantela. Há um evidente desgosto em desfazer o que está pronto e demandou tempo, trabalho e emoções. Mas a sensação produzida pelo que foi visto e reunido no espírito dos que amam a literatura não vai se extinguir, acredito. E um dia os escritores terão seu espaço definitivo.

Só a parte visível da instalação vai sair de cena. A esperança, essa fonte que brota indefinidamente no coração pulsante, permanecerá.


SAPATARIA DO LIVRO

Luiz Cruz

Em abril deste ano Cruz me procurou. Propôs que eu fizesse a leitura de minha obra, nos moldes como Regina e outros haviam feito a dele em 2010; e ele, por sua vez, faria outra leitura, pois pessoal, da sua. Mas o que mais o entusiasmava, e me fez aceitar o convite depois de alguns dias de reflexão, foi o propósito de reunir todos os escritores de Franca, através de seus livros, num mesmo espaço que desde o início ele batizou de Sapataria do Livro.

Na lousa desta sala Eny Miranda escreveu: “Este espaço é reservado aos artífices da palavra, que ajudaram a construir a cultura francana, como os artesãos do couro ajudaram a erigir sua economia. Lembra mãos e corações a serviço do corpo e da alma, e suas pegadas, nos caminhos da matéria e do sonho. Convidamos os visitantes a descobrirem, nas caixas, algumas das marcas deixadas nas letras pelos escritores francanos”.

Não foi fácil transformar o sonho em realidade, a mostra em instalação. Valeu-nos, demais, a colaboração criativa de parceiros especiais como as já citadas Regina e Eny, de Karina Gera e Renzo Covas. Sem eles teria sido quase impossível chegar ao resultado que perseguíamos. Falando a mesma linguagem, nossos parceiros nessa viagem foram também grandes amigos que souberam interpretar nossos anseios conferindo-lhes traços de relevância com sua arte.

A todos, portanto, muito obrigada!


Serviço
Mostra Literária
Quem: Sonia Machiavelli e Luiz Cruz de Oliveira
Onde: Ave, Palavra!
Rua Campos Salles, 1510, Centro, Franca
Dias: 23 a 30 de julho
Horário: das 9h00 às 15h00

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras