O trem da minha vida

Por: Mauro Ferreira

Tem certos dias/Em que eu
penso em minha gente/E sinto
assim/Todo o meu peito se
apertar/Porque parece/Que
acontece de repente/Como um
desejo de eu viver/Sem me notar/
Igual a tudo/Quando eu passo no subúrbio/Eu muito bem/Vindo de trem de algum lugar/E aí me dá/Como uma inveja dessa
gente/Que vai em frente/Sem nem ter com quem contar
São casas simples/Com
cadeiras na calçada/E na
fachada/Escrito em cima que é um lar/Pela varanda/Flores tristes e baldias/Como a alegria/Que não tem onde encostar/E aí me dá uma tristeza/No meu peito/Feito um despeito/De eu não ter como
lutar/E eu que não creio/Peço a Deus por minha gente/É gente
humilde/Que vontade de chorar

Gente Humilde
Choro de Garoto de 1952.
Chico Buarque e
Vinicius de Moraes fizeram a letra em 1969, após sua morte.


Quarenta anos depois que fiz pela primeira vez o trajeto de cinqüenta quilômetros entre São Paulo e Mogi das Cruzes, onde fui cursar arquitetura, retornei para reencontrar alguns amigos que ainda vivem lá.

Preferi viajar de trem para tentar reconhecer as mudanças que aconteceram nestes quarenta anos e fazer um retrato e um balanço pessoal do Brasil. Lembro que, ao chegar à velha e hoje demolida rodoviária do centro de São Paulo vindo de Franca, carregando uma pesada mala, tinha que ir a pé até a estação de trem da Luz. Era obrigado a passar para o outro lado da rua, pois o tenebroso prédio do DOPS, a tristemente célebre prisão e centro de torturas da ditadura militar cercava as calçadas com trincheiras. Era o tempo da luta armada. Pegava o trem da Santos-Jundiaí, descia no Brás, passava por cima da linha e chegava à estação do norte, da Central do Brasil, para embarcar no trem do subúrbio. Não existia metrô e nenhuma das linhas de trens era interligada.

A primeira mudança para melhor foi essa. O metrô e os trens foram integrados, não é preciso sair de uma para passar para a outra, o bilhete é único, tudo foi modernizado. As extensas periferias pobres da zona leste foram, muito mais que os estudos dos textos marxistas e socialistas que marcaram minha juventude, o que me deu consciência social da necessidade de operar transformações políticas, econômicas e sociais que tornassem o Brasil um país menos injusto, que me levaram à militância política de esquerda e no PT.

Para quem vinha de família de classe média de uma tranqüila cidade do interior para uma realidade daquelas foi um choque enorme, ver ao vivo e a cores, a tragédia da miséria mais abjeta, a desigualdade social mais contundente. Franca tinha seus bairros populares, sua pobreza, mas nada tão distante daquela realidade absurda. Quantas e quantas vezes fiz aquele trajeto sacolejante do trem acompanhando estações e estações, bairros e mais bairros, imensas massas de barracos construídos sem acabamento, ruas de terra, esgoto a céu aberto, as pessoas paupérrimas cansadas e esgotadas nos trens, o olhar desesperançado de migrantes que vinham tentar a vida e a sorte na cidade grande. Foi ali que minha opção pela arquitetura social passou a ser uma exigência. Para mim, a música de Garoto, Vinicius e Chico Buarque é como um hino daquela época, um retrato do que sentia ao passar por ali.

Até Itaquera, onde pude observar as obras do gigantesco estádio do Corinthians e que vai ser palco da Copa do Mundo, ponto final do metrô, a cidade melhorou, há um processo de verticalização em curso com grandes prédios e conjuntos habitacionais novos. Vi o Centro de Educação Unificado CEU, implantado pela prefeita Marta Suplicy, exemplo de boa prática educacional e com bela arquitetura. Até Guaianazes, onde fiz um transbordo para outro trem. Aí a coisa muda um pouco. (continua semana que vem)

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