Euclides da Cunha e o assassino norueguês

Por: Everton de Paula

Muito já se falou e ainda se fala sobre a vida, obra e pensamento de Euclides da Cunha. Provavelmente, a frase que melhor sintetiza a criação desse escritor fluminense tenha sido a de Roquete Pinto: Com Os sertões, viu-se pela primeira vez no Brasil o espírito científico. O que, na realidade, a crítica pretendia, era mostrar ao público leitor brasileiro que se iniciava em nossa história cultural um processo literário não só apenas voltado à elaboração estética do texto, mas notadamente ao aspecto social de seu conteúdo. Era a tal da obra engajada, expressão emprestada do francês para identificar o livro comprometido com questões sociais. No caso, Euclides, não apenas em Os sertões, mas também em Contrastes e confrontos e Peru versus Bolívia, procurou alertar a nacionalidade quanto às desigualdades sociais no país, o abandono do homem do interior, a disparidade cultural entre o Brasil do interior e o do litoral, problema que mais tarde se denominaria de “os dois brasis”.

O aparato científico de Euclides não apenas valorizou os efeitos que produziu, que foram profundos. Nascia de uma intenção, de uma cuidadosa e paciente elaboração, “de consultas numerosas, de estudos tenazes.” Dentro de seus critérios, perseguia a certeza, detestava os meios tons, as dúvidas. E denunciou, o tanto quanto pôde, as desigualdades sociais e a marginalização que a recém-instaurada república promovia frente ao homem sertanejo, preocupada mais em dissuadir a população dos benefícios fiscais de uma monarquia derrubada e o progresso positivista de que se revestia a nova forma de governo.

Mas nem tudo na obra de Euclides da Cunha é cientificamente correto. A permanência e a atualidade de seu conteúdo se devem mais ao arcabouço literário, à beleza da frase, aos processos de intensificação e antinomia que propriamente seus arremedos científicos, notadamente quando toca no assunto pertinente à raça.

Por exemplo: o colonialismo, para Euclides, trazia à tona, a mistura de velhos e novos problemas de antropologia e problemas de classe social. Ainda Roquette Pinto: O problema da ideologia do colonialismo é tão flagrante em Euclides que pode ser indicado no contraste entre o texto do “Diário de uma expedição” e o do grande livro (“Os sertões”) em que se transforma. Naquele texto, realmente não há uma só nota referente à inferioridade de raça (...) Apenas admite o fanatismo religioso como forma de paranoia, observação que, no domínio individual Canudos era problema social e, portanto, coletivo -, pode ser aceita ainda hoje.”

No entanto, ao escrever Os sertões, deihoje absolutamente distorcido, sobre a inferioridade de raças devido à miscigenação (cruzamento inter-racial).

Em 1897, Euclides escreve seu pensamento, contradizendo sua posição de um ano atrás: Qualquer, porém, que tenha sido o ramo africano para aqui transplantado trouxe, certo, os atributos preponderantes do “homo afer”, filho das paragens adustas e bárbaras, onde a seleção natural, mais que em quaisquer outras, se faz pelo exercício intensivo da ferocidade e da força. Quanto ao fator aristocrático de nossa gens, o português, que nos liga à vibrátil estrutura intelectual do celta, está, por sua vez, malgrado o complicado caldeamento de onde emerge, de todo caracterizado. (Os sertões, p. 114, 15ª ed.)

Não pararia por aí. Sua visão distorcida do entrecruzamento de povos de cultura e civilização distintas, a sua condenação ao cruzamento se mostraria de forma peremptória. Pasme o leitor: A mistura de raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial. Ante as conclusões do evolucionismo, ainda quando reaja sobre o produto o influxo de uma raça superior, despontam vivíssimos estigmas da inferior. A mestiçagem extremada é um retrocesso(...) O mestiço (no caso o brasileiro, nota do autor) traço de união entre as raças, breve existência individual em que se comprimem esforços seculares, é, quase sempre, um desequilibrado. Foville compara-os, de um modo geral, aos histéricos. Mas o desequilíbrio nervoso, em tal caso, é incurável: não há terapêutica para este embater de tendências antagonistas, de raças repentinamente aproximadas, fundidas num organismo isolado. (In Op.Cit, p. 108).

Creio que Euclides tenha desnudado, apenas, uma verdade não científica, mas de procedimentos futuros de grupos ou líderes extremistas, que culminariam na última década da metade do século passado, com Adolf Hitler e toda a paranoia nazista.

Grupelhos seguiram a corrente contrária ao cruzamento de raças. Em 25 de julho deste ano, o mundo se chocou uma vez mais ante o extremismo do assassino norueguês Anders Breivik, que substituiu o termo “esquerdismo” por “multiculturalismo” para censurar a imigração de muçulmanos. De volta as teses caolhas do cruzamento inter-raças. Segundo suas palavras, querendo salvar a Europa do Islã, assassinou mais de 70 pessoas. E mais: colocou na internet uma quilométrica arenga de extrema direita-racista, genocida, nazista poucas horas antes de matar. Realça a promiscuidade cultural e sexual entre raças, sobre supostas superioridades nórdicas e outras aberrações, que já haviam sido despejadas no esgoto na II Guerra Mundial. Fez pelo menos 12 referências ao Brasil; eis uma delas: ... a imigração massiva, a mistura racial e a adoção por não europeus são uma ameaça à unidade da nossa tribo (...) um país que tem culturas competitivas vai se dilacerar ou vai acabar como um país disfuncional, como o Brasil e outros países.”
Diz que no Brasil foi instituído um modelo de sociedade que mistura descendentes de asiáticos, europeus de africanos, levando a altos níveis de corrupção, falta de produtividade e conflito eterno. Afirma ser o Brasil o segundo país no mundo com o maior nível de desigualdade social devido à miscigenação, chamando mulatos e mestiços de “sub-tribos”. (http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid 27/7/2011).

Qual a diferença, portanto, entre Euclides da Cunha de 1897 e Anders Breivik de 2011? Simples a resposta: primeira: ambos estão equivocados quanto às questões referentes à miscigenação e teorias sobre superioridade racial; segunda: Anders Breivik optou pelo extermínio, mostrando às suas vítimas o brilho de sua civilização superior pela descarga de um fuzil; a proposta de Euclides da Cunha era muito, muitíssimo mais nobre: incorporar os rudes patrícios do interior à civilização litorânea. Tanto que, diante das barbáries cometidas pelo governo brasileiro na guerra de Canudos, exterminando mais de 5 mil sertanejos isolados no interior da Bahia, às margens do Vaza-Barris, exteriorizou seu espanto e revolta com uma frase antológica: POR QUE NÃO ENVIARAM MESTRES-ESCOLAS EM LUGAR DE FUZIS?

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