Estamira, entre escombros e detritos

Por: Sônia Machiavelli

139258

Estamira Gomes de Souza morreu há dez dias, aos 70 anos, no Rio de Janeiro, de infecção generalizada, depois de horas de negligência médica nos corredores do hospital Miguel Couto, no Rio de Janeiro. Os obituários dos grandes jornais trouxeram a notícia. É provável que as revistas semanais venham hoje com algumas considerações sobre o documentário homônimo —Estamira — que tornou pública esta figura feminina extraordinária que jamais poderá ser entendida apenas como produto da loucura. Mais que esquizofrênica, paranoica, psicótica, Estamira era poeta. Irmã espiritual de Bispo do Rosário, construía com sua imaginação delirante e suas palavras poderosas uma cosmogonia que quis o tempo todo revelar a alguém que a ouvisse. Calhou que esse alguém fosse outro artista, Marcos Prado.

O fotógrafo Prado estava na época, Natal de 2000, dividindo um trabalho, Onibus 174, com José Padilha e encontrou Estamira por acaso, no lixão de Gramaxo, quando fazia fotos para outra produção. Ficou tão seduzido pela excentricidade dela, que durante dois meses perambulou pela periferia à sua procura. Depois de a reencontrar, levou dois anos filmando-a no cenário de aniquilação, e mais dois para finalizar o documentário com o qual ganhou 23 grandes prêmios, nacionais e internacionais. É um filme para poucos, não é entretenimento, é uma odisseia. Tem de ter estômago para ver algumas imagens. E coragem para ouvir todas as palavras com as quais Estamira resiste como testemunha e personagem , entre escombros e detritos.

Desde a primeira cena, milhares de papéis sujos voando com urubus na direção de um céu muito azul, tudo ganha a tela de forma intensa e excessiva, quase sempre em preto e branco, com tendência forte ao cinza chumbo. Miséria, dor, negligência, violência, abuso, insanidade reúnem-se a toneladas de lixo descarregadas a todo momento de enormes e assustadores caminhões. O aterro sanitário do Jardim Gramacho, na Baixada Fluminense, lembra às vezes algumas ilustrações produzidas por artistas do século XIX para o Inferno de Dante. No espaço de degradação máxima, a protagonista, cercada ora por alguns catadores, ora por cães e urubus, fala, narra, estridula, gargalha, grita, raciocina, canta,se encoleriza, ameaça, expõe sua teoria segundo a qual “Quem criou Deus foi o homem.” Pra surpresa dos que leram Nietzsche e acompanham a trajetória da mulher entre comida podre e água estagnada, ela ainda flexiona verbos como uma acadêmica- fôssemos, estivéssemos, cantarola em italiano estropiado , dialoga com alguém invisível nu
m simulacro de celular, compondo frases inteiras de uma pseudo mas reconhecível língua alemã. Um espanto.

A fala de Estamira é perturbadora pelo que acumula de conceitos instigantes e é sedutora pelo que comporta de poeticidade: “ Para mim, tudo o que nasce é Natal. Depois da morte a gente fica transparente, mas mantém o contorno. Eu sou a visão de cada um. Proteger as coisas é necessidade. O demônio é poderoso ao contrário. É o Trocadilo. O Trocadilo. O além do além ninguém viu. O além do além é um transbordo. O aterro é o além do além. Tem gente que joga a pedra e esconde a mão. A palavra cometa, sabe o que significa? Significa comandante, é, co- man-dan-te. A vida não tem dono. Quem manda é o Bem, o Mal não manda nada. Sou perturbada mas lúcida, porque tenho consciência da minha perturbação”.

É assim, dando voz a uma mulher de 60 e poucos anos, em andrajos mas com voz firme, olhar hipnotizante, jeito de quem não se importa com o que pensem dela, que Prado começa sua história corajosa. Será apenas depois dos primeiros vinte minutos que a câmera vai flagrar Estamira em sua casa, frágil habitação de papelão mal colado, onde cozinha o que encontrou no lixão. Ela tem três filhos, netos e lembranças fragmentadas que, à maneira de um espelho estilhaçado, talvez expliquem parte da sua vida e, com certeza, refletem uma infinidade de vidas de brasileiras estupradas por familiares, espancadas por maridos, esbulhadas em seus direitos, condenadas por uma herança genética que não encontra na assistência médica pública qualquer tratamento digno.

No DVD que acompanha o documentário, Marcos Prado cita a razão maior que o levou a trabalho tão custoso, algumas vezes penoso no limite do insuportável. Diz que ao encontrar Estamira pela primeira vez, e lhe perguntar o que fazia naquele lugar de miséria total, ela havia respondido: “Minha missão é revelar a verdade, mostrar o que eles não sabem, capturar a mentira”. E antes que ele pudesse contra-argumentar: “ E a sua missão é revelar a minha missão.” Em razão disso, o cineasta costuma repetir para quem pergunta a respeito: “Não escolhi Estamira, foi ela quem me escolheu”.


PREOCUPAÇÕES SOCIAIS

Marcos Prado

Carioca, 50 anos, fotógrafo, produtor e diretor de cinema, Marcos Prado não faz filme para entreter e sim para denunciar. Não nos oferece pães de mel, antes desfere uns socos no estômago, para fazer refletir sobre nossa responsabilidade - como seres humanos e cidadãos. Começou com Os Carvoeiros, em 1999, inspirado em seu livro homônimo, com direção de Nigel Noble. Em 2002 foi a vez de Ônibus 147, em parceria com Felipe Lacerda e José Padilha, a quem se associou para criar a Zazen Produções. Em 2007 o estrondoso sucesso de Tropa de Elite o fez reconhecido do grande público, que já havia aplaudido, junto à crítica, seu Estamira, trabalho eminentemente autoral. Tropa de Elite 2 veio na sequência e com o mesmo endosso de público e crítica. Finaliza no momento Paraísos Artificiais.

Prado é fotógrafo por formação e, como tal, recebeu um grande número de prêmios expressivos, nacionais e internacionais, entre eles o World Press Photo 92 e o Focus on in our World 92, da ONU. Possui fotos nos acervos permanentes do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, do Museu de Arte Assis Chateaubriand (MASP) e do Museu de Arte Moderna, São Paulo. Realizou exposições individuais no Brasil e no Exterior. Com a série de fotos do lixão de Caxias foi premiado com o prestigioso Marc Ferrez de Fotografia, com exposição na Casa França-Brasil, em 2005.

Desde o documentário resenhado ao lado, cuidou de Estamira, na medida em que ela o permitiu. Destinava-lhe uma pensão mensal, que a ajudava a sobreviver no estilo que a singularizou e a tornou, sob o ângulo da arte, eterna.

Serviço
Título: Estamira
Lançamento: 2006
Direção: Marcos Prado
Duração: 115 minutos
Gênero: documentário
Onde locar: nas videolocadoras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras