O país dos vira-latas

Por: Chiachiri Filho

O monstro da Noruega, aquele marqueteiro do diabo que pretendia chamar a atenção para suas idéias desvairadas com a morte e o sangue de inocentes, referiu-se à miscigenação brasileira como causa de nosso atraso, de nossa corrupção e da baixa produtividade de nossos trabalhadores. O texto do alucinado, divulgado pela Internet, refletia, em certos aspectos, o Mein Kampf de Adof Hitler. Portanto, as idéias racistas não estão mortas e enterradas. Elas continuam aflorando nos reinos e nações formados pela mistura de muitos povos bárbaros como os germânicos, os anglos, os saxões, os francos, os lombardos, os eslavos, os turcomanos e tantos outros mais. O racismo é uma praga, uma praga que pode matar, como matou, que pode atacar uma sociedade com sua virulência, insensatez e crueldade.

Ainda bem que vivemos no Brasil. Meu avô paterno, por exemplo, nasceu em Marsin, na Turquia. Minha avó era de Trípoli, no Líbano. Ele era ortodoxo e ela maronita. Encontraram-se e casaram-se no Brasil. Seus filhos mais velhos foram batizados na Igreja Ortodoxa e os mais novos na Católica. Meus avós maternos eram descendentes de portugueses, sendo que nas veias de meu avô corria também , em grande parte, o sangue caiapó. Aos meus filhos, acrescenta-se ainda o sangue italiano. Por conseguinte, sou um autêntico vira-lata. Somos uma família de vira-latas. Apreciamos , com muito prazer, o quibe na coalhada, o angu no feijão e a macarronada à bolonhesa.

O Brasil é assim: uma mistura de etnias, de credos e de costumes. Africanos, alemães, italianos, espanhóis, portugueses, japoneses, árabes, judeus, poloneses, ucranianos e tantos outros vivem em paz e harmonia procurando construir uma nação. Nação que não será forjada pela guerra, pela mágoa, pela vingança e rancores. Nação que desabrocha pelo encontro entre várias culturas, religiões, usos e costumes.

Nas ruas do Brasil, ninguém se surpreenderá ao encontrar um branquelo de cabelos crespos e dentes de marfim ou uma mulata de olhos verdes e cabelos naturalmente lisos ou, ainda, uma loirinha de olhos amendoados. Somos, graças a Deus, um país de vira-latas. Vira-latas sorridentes, alegres, cordiais, tolerantes que não trazem em seus ombros o peso e a culpa do assassínio de milhões de pessoas por causa da cor de sua pele, de seus olhos, de sua religião, de sua origem racial. Não somos conseqüência de uma apuração genética. Somos frutos da vida, da miscigenação, do respeito, da tolerância, do encontro e reencontro de vários povos que se amorenam sob a resplandecente luz de um país tropical.

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