O engano de Jó

Por: Jane Mahalem do Amaral

Todos nós conhecemos, de alguma forma, a história de Jó. Ouve-se muito amiúde alguém dizer que “teve paciência de Jó”. Esse personagem bíblico parece nos trazer a lição de humildade e aceitação quando posto à prova por Deus. No entanto, ao ler a história completa veremos que Jó não mostrou apenas concordância e que em muitos momentos ele questionou Deus por deixá-lo tão desamparado em suas provas.

Tudo começa assim: “Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles. Então perguntou o Senhor a Satanás: Donde vens? Satanás respondeu ao Senhor, e disse: De rodear a Terra e passear por ela.”

Deus, então, pergunta a Satanás se conhecia seu servo Jó, pois ele era um homem íntegro, temente a Deus e que sempre se desviava do mal. Satanás responde que Jó só era assim porque tinha tudo, nada lhe faltava, pois era ele o homem mais poderoso de todo o Oriente. Seria bom vê-lo sem nada para ter certeza de que ele não blasfemaria. Deus então permite que Satanás tire-lhe tudo, apenas guarde a sua vida.

Assim, numa sequência absurda, vemos Jó perder suas posses, seus filhos, suas terras, plantações, animais e finalmente sua saúde, tornando-se um homem ferido de tumores malignos em todo o corpo.

A partir daí, Jó começa a questionar a bondade de seu Deus, ou procura descobrir onde foi que ele errou, querendo encontrar os motivos por estar sendo tão castigado.

Penso que a função de todas as tradições espirituais é a de despertar diferentes planos de consciência escondidos que estão no nosso inconsciente coletivo. Alguns diriam no nosso inconsciente cósmico. Somos parte do universo, de uma totalidade única e assim podemos reconhecer em tudo e em todos, essa mesma natureza que nos habita e na qual habitamos. As histórias esclarecem e nos colocam frente a frente com os nossos conflitos.

Quem é Jó senão cada um de nós que, no mesmo instante que tem tudo, logo se vê perdido e sem nada... Quem é Satanás ( a palavra Shatan em hebraico quer dizer obstáculo) senão todas as dificuldades que nos atravessam a caminhada?

O texto de Jó, embora nos pareça excessivo, e por que não dizer fora de propósito, é apenas a realidade que nos envolve. Sua função é a de nos lembrar que o mal existe na figura de Satanás, obstáculos, e que a infelicidade e a dor sempre testam nossos limites.

A questão é ir além. É caminhar na direção que vai além das nossas concepções de bem e mal, de felicidade e infelicidade. É ir em direção àquele lugar onde alegrias e tristezas fazem parte da mesma totalidade, da mesma Vida que cria em nós prazer e sofrimento.

Na maioria das vezes, vemos os desafios da vida como fatos externos, fora de nós, que simplesmente aparecem para nos atrapalhar, nos desacomodar, nos tirar da zona de conforto. No entanto, o inimigo não é o Shatan, projeção idealizada do Mal, mas são, geralmente, nossas pobres ferramentas relativas de certo/errado, de bem/mal, habitantes acusadores do nosso mundo interno. O que Jó não concebe é que o que ele vive não é nem bom nem mal. Apenas é o que tem que ser. Estar no bom é viver eternamente na felicidade e ficar no mal é viver no conflito, na dúvida, na divisão e no sofrimento. Aceitar esse movimento que é ora estarmos na felicidade, ora estarmos na infelicidade é aceitar a nossa própria identidade. Segundo estudiosos, o nome em hebraico, job, é a inversão das letras da palavra ojb, cujo significado é inimigo. Jó está entregue ao seu próprio inimigo interno na medida em que apresenta dificuldade em aceitar a Vida. A mesma Vida que lhe deu alegria e depois tristeza, fé e descrença, prazer e dor...

No final, Jó reconhece a bondade de Deus e descobre que tudo que lhe aconteceu foi para conduzi-lo a essa Presença. Então Deus lhe restitui, em dobro, tudo o que antes ele possuía. “Depois disso viveu Jó cento e quarenta anos; e viu a seus filhos,e aos filhos de seus filhos, até a quarta geração.”

Somos nós, os Jós, que quando não reconhecemos a Vida, não oferecemos ao nosso ente mais profundo a mais ampla oportunidade de ser...

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