O trem da minha vida

Por: Mauro Ferreira

Tem certos dias/Em que eu
penso em minha gente/E sinto
assim/Todo o meu peito se
apertar/Porque parece/Que
acontece de repente/Como um
desejo de eu viver/Sem me notar/
Igual a tudo/Quando eu passo no subúrbio/Eu muito bem/Vindo de trem de algum lugar/E aí me dá/Como uma inveja dessa
gente/Que vai em frente/
Sem nem ter com quem contar
São casas simples/Com
cadeiras na calçada/E na
fachada/Escrito em cima que é um lar/Pela varanda/Flores tristes e
baldias/Como a alegria/Que não tem onde encostar/E aí me dá uma
tristeza/No meu peito/Feito um
despeito/De eu não ter como
lutar/E eu que não creio/Peço a Deus por minha gente/É gente
humilde/Que vontade de chorar

Gente Humilde
Choro de Garoto de 1952.
Chico Buarque e Vinicius de Moraes fizeram a letra em 1969, após sua morte.

Sentado num banco coletivo do trem, com a letra da música na cabeça, fui relembrando, como numa via crucis, todas as estações entre São Paulo e Mogi das Cruzes com seus nomes: Carrão, Penha, Vila Matilde, Calmon Viana. O trem, que até Guaianazes era moderno, com ar-condicionado, foi substituído por outro bem mais antigo e barulhento. Até o tempo ajudou a relembrar o passado, aquela névoa fria invernal típica das regiões que margeiam o rio Tietê até Mogi. Passei por Ferraz de Vasconcelos, um mar de casinhas pobres, depois Poá, que tinha um relógio defronte a estação identificando a Cidade Jóia, na verdade outro grande dormitório de trabalhadores. Continua quase a mesma, só o dístico da “cidade jóia” sumiu.

Depois veio Suzano, a rica cidade da indústria papeleira. Nos anos 70, sem preocupações ambientais ainda, o córrego que vinha da fábrica era podre, bolhas esbranquiçadas exalavam uma mau-cheiro que assustava até quem tinha passado a infância e a adolescência dentro de curtumes como eu. Lembro que eu e o Osias brincávamos que, se os romanos tinham o Mare Nostrum (o Mediterrâneo), Suzano tinha o seu Mare Bostum. As indústrias continuam grandes, a poluição foi reduzida e a riqueza também aparece em grandes obras públicas na cidade. A pequena Jundiapeba, com seu córrego poluído. Depois, Brás Cubas, distrito de Mogi, cheia de fábricas e finalmente a estação da cidade, por onde tantas vezes circulei. A cidade está irreconhecível, cresceu muito (tem 450 mil habitantes), mas continua ao pé da serra do Itapeti, uma beleza de paisagem. Um centro movimentado com ruas muito antigas e estreitas, calçadas idem, a cidade acabou se esparramando por outros lugares que, quando lá estudei, ainda eram campos.

O prédio da faculdade de arquitetura Brás Cubas onde estudei, projeto do meu querido professor Eduardo Corona (que trabalhou com Niemeyer e escreveu a apresentação do meu livro Franca, itinerário urbano), ficou pequeno diante da massa construída atualmente. É um campus urbano bem cuidado, ajardinado e tranqüilo nas férias. O encontro de um pequeno grupo de veteranos arquitetos foi emocionante, cada um contando sobre o que faz e o que fez, os caminhos que percorreu, ao redor da mesa do tradicional restaurante “Bife Esquisito”, uma iguaria da culinária mogiana proporcional ao nosso “JK do Barão”. Foi o ponto alto do encontro. Eu, Túlio, Lis, Helena, Nazaré, Álvaro, Mariângela e “seo” Cláudio pudemos colocar as fofocas em dia. Em especial, pude cobrar mais um cafezinho do Túlio, que sempre me pagava na faculdade, já que eu era um autêntico durango kid. E não é que ele escapou pela tangente? A Nazaré, sempre “mãezona”, não deixou ninguém pagar nada.

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