Escada de olhos

Por: Maria Luiza Salomão

Tive uma inflamação em dois tendões do ombro, e mais uma vez aprendi a dar valor à Saúde, em primeiro lugar, e a preservar qualquer pedacinho dela. Durante três semanas tenho estado com o Danilo, fisioterapeuta da UNIMED, neste excelente serviço de Medicina Preventiva, que tem no Dr. Nilson Salomão (que não é meu parente, apenas um grande amigo) um idealizador e realizador. Batalhador seria uma justa palavra. Vivemos uma época que contradiz o ditado antigo “prevenir é melhor que remediar”.

Em todas as áreas nota-se esta dificuldade em pre-venir, pre-ver, pre-parar, pre-dispor. Pensar é da mesma ordem de qualquer pre. (pensar, segundo Freud, é um ato econômico que substitui o agir).

Domingo fui à Caminhada pela História Urbana de Franca, organizada por Mauro Ferreira, arquiteto. Vimos os estragos aos monumentos históricos, desrespeitos aos tombamentos. Moradas destruídas dos francanos fundadores. Um prédio destruído para dar lugar a outro, que foi destruído também. E temos o que temos hoje. Amontoados, fragmentos.

O que poderemos fazer para começar a pre-ser-var nossas origens? Paramos defronte ao Grupo Escolar Coronel Francisco Martins, fundado em 1828, como está escrito no frontão, em material duro, para durar. O prédio durou até hoje, mas temo por ele. Pode ser que, em um passe de mágica, algo ali se implante sedutoramente, e nos faça esquecer que ele, o “Coronel”, existiu e formou muitas gentes notáveis da cidade.

Nesta semana Danilo, o fisioterapeuta, introduziu um exercício interessante. Meu braço se recusa a levantar ereto ao lado da minha cabeça, então, em uma tábua de madeira fixada na parede, na altura dos ombros, que parece uma escadinha, fui instigada a subir com os dedos indicador e médio, os dois dedinhos se comportando como se fossem minhas pernas, alçando meu braço. O braço ia levantando, com dor, mas ia levantando, seguindo os dedinhos, passo a passo. Após uma sequência de caminhadas, o braço avançou mais um degrauzinho.

Na Caminhada com Mauro Ferreira, meus olhos subiram e desceram escadas, minha memória acordada pela memória de Mauro. Com dores pelo que deixou de existir. Segui degraus de memórias. Memórias-trilhas, que nos levam longe e nos ajudam a retornar. Perdida a Memória, desconhecemos de onde viemos e para onde vamos. Somos migrantes, passantes, sem bagagem e sem Norte.

Ao olhar cuidadosamente o Centro da cidade, tão feinho e poluído de cartazes, de placas, crio uma visão - de través - e vejo a ausência da Beleza Histórica Francana, aquela que não conheci, e que Mauro mostrou em fotos e vídeos, e aquela vivida por mim e que meus netos jamais conhecerão.

Franca perdeu muitos rostos e emblemas do que foi, desde o 28 de novembro de 1805 (e antes), e continua perdendo! Quantos rostos da Cidade ainda serão apagados, não pelo tempo, mas por habitantes pouco zelosos? Quando uma Terra bela e rica de histórias, e não esta mentalidade de eterno migrante, passageiro apressado na Casa-Cidade escolhida para amar e trabalhar, habitar?

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras