Grãos vivos

Por: Eny Miranda

“Cada grão de areia é único. (...) Não existem dois iguais”.

A afirmação é do cientista Gary Greenberg, diretor do Laboratório de Microscopia e Microanálise do Instituto de Astronomia na Universidade do Havaí, que há dez anos fotografa grãos de areia de praias em todo o mundo. Depois de ampliadas, as imagens obtidas revelam formas e cores insuspeitáveis. Segundo ele, “trazem consigo histórias sobre a geologia, a biologia e a ecologia da região de onde se originam”.

A Mostra Literária erguida no curso Ave, Palavra! na última semana de julho reuniu, em letras, formas e cores, milhares de grãos que, únicos em sua individualidade, abrigam, igualmente, histórias de vida e verbo; falam da sensibilidade de duas almas artistas, duas personalidades singulares, duas praias feitas de sonhos, fé, generosidade e dinamismo. A jornalista e escritora Sonia Machiavelli e o professor e escritor Luiz Cruz de Oliveira ali expuseram alguns dos milhares de preciosos grãos que formam a porção arte de suas vidas.

Olhos sensíveis e coração aberto ao que o mundo da palavra e da crença na viabilidade do sonho tem a nos oferecer: eis o requerido como ingresso.

Desde a entrada - onde haikais se descortinam à janela e tsurus em origamis flutuam entre flores e folhas, passando por salas que alimentam olhos, coração e corpo com tessituras de linhas, letras e sabores, até a chegada a uma singular sapataria que alberga duas formas de arte, ambas construtoras da história da cidade: a do couro e a da palavra - há que deixar a alma aflorada, capaz de ampliações e deduções, de sensações e confirmações; há que nela gravar a Beleza e plantar as sementes, ali oferecidas; que reconhecer o eterno, presente no perecível; que conferir a singularidade de cada grão formador da areia viva que calça e abraça o vasto oceano literário de cada autor. Há, sobretudo, que agradecer.

É grande a generosidade contida na construção de um espaço que reconstrói Vida; grande a beleza no gesto de oferecimento desse espaço aos que o buscam por amor à arte. Não é fácil envolver-se física e emocionalmente em uma criação artística e, pouco tempo depois, em seu desfazimento. Mas, como tão bem observa Sonia Machiavelli, “Só a parte visível da instalação vai sair de cena. A esperança, essa fonte que brota indefinidamente no coração pulsante, permanecerá”.

Sim. “Tudo refloresceu. O filósofo concluiu que não se deve plagiar a eternidade.” Palavras sábias do mestre Drummond.

Ao desalento do desfazer sempre se oporá a alegria do refazimento.

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