‘Nada é de graça, exceto a graça de Deus’

Por: Sônia Machiavelli

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A frase, dita pela jovem protagonista de Bravura Indômita, Mattie Ross, é uma das muitas que chamam a atenção para a fina ironia de seu discurso. Interpretada por Hailee Steinfeld, 14 anos, estreante no filme que recebeu em 2010 dez indicações ao Oscar, confere ao palavreado o meio termo que é traço distintivo do gênero western, equilibrado entre tragédia e comédia. Ela é a alma da história. Ao seu lado, três renomados atores: Jeff Bridges, como Cogburn, xerife aposentado do Velho Oeste americano; Matt Damon, o Laboeuf, outro tipo de defensor da ordem; e o bandido sem o qual nenhuma das qualidades do herói podem ser evidenciadas. Na pele do vilão Tom Chaney, quase invisível mas o tempo todo mencionado, Josh Brolin revela experiência. Alguns papéis aparentemente pequenos, às vezes só os grandes para fazê-los bem.

Resumo da história: Mattie, mocinha do Arkansas, até hoje um Estado atrasado , vai buscar em Fort Smith o corpo do pai, morto por um facínora que lhe roubou duas barras de ouro e um cavalo. Usando de espantosa habilidade para negociar, ela contrata Cogburn para caçar o assassino, que se embrenhou em território de índios- lugar que daria origem décadas depois a Oklahoma. Precoce, ousada e séria, também muito inteligente, a adolescente vai junto, embora a contragosto do xerife, nessa caçada humana. No meio do caminho descobrem Laboeuf, que vem de outro Estado e, por interesses que não estritamente legais, também quer pegar Chaney. O filme se constrói pelo relato dessa perseguição que tem como pano de fundo a magnífica paisagem, tornada em alguns momentos também personagem. É inverno e o fotógrafo Roger Deakins faz um trabalho inspirado, capturando a rigidez desta estação no hemisfério norte, para combiná-la com a narração em off de Mattie, no final do filme adulta e mergulhada em justificada amargura. Nada é de graça e tudo tem preço, inclusive a vingança.

Neste espaço mítico em que se transforma o Oeste dos Estados Unidos do século XIX, instaura-se pelas mãos dos diretores o gênero mais americano do cinema, o western. A busca pela verossimilhança é notória nos cenários, nos chapéus, nos bigodes. Nas franjas e nas esporas. Nas construções onde impera a madeira escura. Na poeira que envolve seres e coisas e forma um filtro ao olhar. Nas armas, nos tiroteios, no sangue, nos cigarros. No uísque bebido de um só gole. Nos diálogos que soam esquisitos pelo arrastar da fala. Nos cavalos - a cena da morte de Negrinho remete ao universo ficcional de Guimarães Rosa. E na astúcia dos homens de bravura indômita.

Pausa e parêntese para essa expressão, bravura indômita. Não sei quem faz tradução de títulos de filmes no Brasil, mas gostaria de saber, pois não raras vezes eles soam muito diversos da significação original. Aqui, por exemplo, o título em inglês é True grit, algo mais próximo de Coragem verdadeira em português coloquial. Por que então bravura, um substantivo pertinente ao léxico erudito, e indômita, adjetivo mais culto ainda? É difícil imaginar uma garota como Mattie dizendo ao xerife que ele “é considerado por todos um homem de bravura indômita”. Mais natural imaginá-la falando “um homem de muita coragem” ou “ de coragem verdadeira”. Ficou melhor a tradução para o português de Portugal, onde o filme ganhou o título de Indomável, de muito maior intimidade semântica com o mundo do western por seus sentidos de não subjugado, não amansado - como os cavalos selvagens, talvez. Até porque o dito Cogburn, cuja voz soa abafada dentro da cabina da latrina, onde vai buscá-lo pela primeira vez a adolescente sedenta de vingança, é um homem visivelmente indomesticável.

Não foi a primeira vez que o livro de Charles Portis chamou a atenção de cineastas. Em 1969 John Wayne, perfeita encarnação nas telas do cowboy americano, ganhou um Oscar pelo papel de Cogburn, caracterizado também com tapa-olho, copo na mão, dedo no gatilho. Na ocasião, o diretor Henry Hathaway fez uso de um número bem maior de licenças poéticas para contar a história. Os irmãos Coen mantiveram-se fiéis à essência do romance, conseguindo imprimir as suas digitais na transposição de linguagens. Com seriedade e leveza, duas características que por vezes parecem inconciliáveis, eles fazem de Bravura Indômita um filme que seduz: embora tenha 110 minutos, deixa gostinho de quero mais no final, prova cabal do fazer artístico que exibe a marca da competência para encantar os olhos e manter o interesse despertado.


CINEMA DE AUTOR

Os Irmãos Coen

Quem assistiu a Fargo, O amor custa caro, Onde os fracos não têm vez, Queime depois de ler, concordará que para os Irmãos Coen, diretores destes filmes, não existe muito espaço para conceitos básicos de Bem e Mal, percebidos pelo senso comum como manifestações dialéticas. No lugar de dualidades eles preferem apostar na interação de emoções, na mescla de sentimentos, no contraditório de muitas vivências que fluem sob a tal mão inexorável do destino. Suas criaturas tornam-se assim mais humanas. Nisso reside o tom autoral dos cineastas.

Joe, 57, e Ethan, 53, pertencem a uma família de judeus fixada nos Estados Unidos. Os pais foram professores universitários. A mãe lecionou História da Arte; o pai, Economia. Os irmãos têm formação em cinema, e começaram a carreira trabalhando como assistentes em algumas produtoras de filmes e vídeos musicais. Foram também editores de filmes, antes de partirem para a experiência autoral de criar, roteirizar, dirigir, editar o próprio trabalho. O primeiro, concluído em 1984, foi Gosto de sangue , e o mais importante, pelo número de prêmios recebidos, Fargo, de 1996. Em geral suas histórias não são lineares nem previsíveis.

Eles são nomes reconhecidos pelos seus pares e pelos fãs como intensamente envolvidos com o que fazem. Cada filme acaba por consumi-los de um jeito especial e Bravura Indômita não foi diferente. Só um detalhe: para entrar no clima, usaram chapéus de cowboy durante toda a filmagem.


Serviço
Título: Bravura Indômita
Diretores: Irmãos Coen
Duração: 110 minutos
Gênero: Western
Onde: nas locadoras

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