Domingo

Por: Chiachiri Filho

Amanhã será domingo, mais um domingo. Há 50 anos atrás, eu me levantaria, tomaria um café reforçado ( caso não fosse comungar ) e iria para a missa das 10. Vestiria uma roupa de “ver Deus” : um terno azul-clarinho com finíssimas listas brancas. Ao chegar, como sempre, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição estaria repleta. Eu ficaria no fundo, em pé, a uma certa distância do Dr. Alfredo Palermo que, elegantemente vestido, não perdia missa aos domingos e trazia sempre nas mãos um exemplar do Comércio da Franca que lhe servia de suporte ao ajoelhar-se no chão duro do templo.

Terminada a missa, atravessávamos a praça , entrávamos na Rua Marechal Deodoro e dobrávamos a Campos Sales para ver os cartazes dos cinemas ( o São Luís e o Odeon ) . Dos cinemas, caminhávamos até a AEC, principal clube da cidade. À nossa frente, geralmente, estava um grupo de meninas em pleno esplendor de sua juventude. Desfilavam alegremente com seus saltos altos, vestidos leves e coloridos, braços roliços, cabelos ao vento, sorrisos nos lábios. Lançavam olhares sedutores e evolviam-nos com seus perfumes primaveris. Sabiam que estavam sendo admiradas e desejadas. Sabiam e gostavam disso tudo.

Na AEC, se o dinheiro desse, tomávamos um refrigerante e voltávamos para casa lá pelas 11H30. O almoço estava quase pronto : salada de alface e tomate, frango refogado, purê de batata, arroz e macarronada à mineira, isto é, macarrão espaguete feito no molho do frango.

À noite, voltávamos aos cinemas para assistir à sessão das 8. Assim eram os nossos domingos.

O tempo passou. Os cinemas não existem mais, o Dr. Palermo não vai mais às missas das 10, a AEC foi destruída. As moças... as moças não enfeitam mais a praça com o ar de sua graça e beleza. Tornaram-se mães, tias, avós. Já passaram dos sessenta anos.

As moças, agora, enfeitam as nossas recordações. Não há como esquecê-las. Basta fecharmos os olhos para vê-las desfilando leves, soltas, rosadas, coloridas. Basta cerrarmos os olhos para sentir de novo o doce perfume da juventude.

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