O delegado

Por: Mauro Ferreira

Ele tinha cursado uma faculdade de direito numa daquelas cidades perdidas no interior de Goiás. A má qualidade do curso impediu que fosse aprovado no rigoroso exame da Ordem dos Advogados, o diploma ficou enrolado sobre um armário do seu quarto, sem nunca sair dali. Queria mesmo era ser delegado de polícia, assistia séries policiais de TV, mas nunca conseguiu ser aprovado. Ainda assim, na pequena cidade em que vivia e trabalhava como vendedor de seguros, gostava de ser chamado de doutor.

Foi um vendedor de sapatos, que passou pela cidade e conheceu num bar tomando umas cervejas depois do expediente, que o informou da existência daquela cidade no interior paulista, considerada uma ilha de sapateiros cercada de advogados por todos os lados. Ou seria o contrário? Tinha três faculdades de direito, nenhuma de engenharia industrial e quinhentas fábricas de sapatos, era “uma cidade muito próspera e hospitaleira”, dizia o vendedor. Ele não teve dúvidas, aquilo era o eldorado. Resolveu mudar de ares.

Após dois meses sem trabalho, o dinheiro escasseando, a dona da pensão perto do terminal de ônibus onde tinha acampado cobrando os atrasados, o dono do “sujinho” onde comia uns PFs suspendendo o fiado, resolveu dar um jeito audacioso na situação. Montado em seu rodado Chevette, juntou duas garotas de programa e entrou numa farmácia. Bem vestido, apresentou-se como delegado para a atendente, disse que estava numa operação policial e que precisava de uma caixa de Viagra, perguntou o preço, pediu uma nota de cem reais para trocar no carro e acertar o troco. Ingênua, a atendente entregou e ficou pasma quando ele subiu no carro e acelerou, desaparecendo na primeira esquina, com remédio, garotas e dinheiro.

Dias mais tarde, foi o dono de um trailer de lanches que recebeu sua visita. A mesma conversa. Disse que estava numa operação policial de apreensão de drogas, precisava de doze sanduíches e cinqüenta reais de troco. Ele levou tudo embora e desapareceu, o coitado do chapeiro ainda está até hoje desnorteado com o prejuízo tomado. Na semana seguinte, tentou aplicar a mesma receita numa pizzaria novidadeira, que tinha trazido para a cidade a iguaria predileta do prefeito: a pizza em cone, que ele chutava goela abaixo. Mas o dono, que já tinha lido no jornal da cidade sobre o assunto, acionou sorrateiramente a polícia.

Enquanto ele esperava que as pizzas ficassem prontas, sentiu o cheiro de queimado vindo não do forno a lenha, mas da porta do restaurante. Foi quando viu as luzes das viaturas chegando. Não esboçou qualquer resistência quando os policiais lhe deram voz de prisão e o levaram para a delegacia. Pelo menos, iria realizar seu sonho de entrar numa, mesmo que em condições adversas. A única vantagem é que a comida do lugar era boa e de graça.

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