Diante da dor

Por: Sônia Machiavelli

Li em revista semanal que o cientista carioca Ricardo Cotta, 51, anunciou que está desenvolvendo, com alguns colegas da UFRJ, sensor de velocidade de aviões resistente a qualquer temperatura. Seu trabalho começou há dois anos, quando um Airbus, que voava do Rio para Paris, caiu no mar. As investigações mostraram que o acidente ocorreu porque três tubos chamados pitots se congelaram de repente, devido a condições climáticas adversas mas previsíveis, parando de operar quando os graus chegaram aos 52 negativos. Sem informações do exterior, piloto e copilotos perderam o controle da aeronave. 228 pessoas estavam a bordo e terminaram a viagem no fundo do Atlântico.

Vi num canal por assinatura há alguns dias a imagem de um homem cujo tom de pele e traços fisionômicos lembravam bem sua ascendência indiana. Ele falava a um grupo de gente exaltada, diferentes etnias, num bairro pobre de Londres. Muitos dos que o ouviam estavam com as fisionomias também chamuscadas . Num tom de voz que denotava impressionante autoridade , o homem convocava ao bom senso. Dizia com palavras simples e frases curtas que não poderiam continuar em clima de guerra, pois todos que ali se encontravam tinham escolhido viver naquele lugar e deveriam se esforçar para fazê-lo em paz. Os agressores recuaram e o silêncio se impôs, evitando, pelo menos naquele instante, o recrudescimento da barbárie.

Parecem duas situações pontuais, sob certo aspecto compõem relatos corriqueiros, desses que vemos a toda hora na mídia. Um quer dar sua colaboração para que não ocorram mais acidentes causados por falhas nos sensores dos aviões: é engenheiro, trabalha na área, tem um QI alto que lhe permitiu ingressar na faculdade aos 15 anos e terminar doutorado aos 24. Outro pretende contribuir para a retomada da ordem numa metrópole que há décadas não assistia a cenas tão violentas, com dezenas de jovens feridos e alguns mortos, mais prédios incendiados: para isso recupera sua calma quando todos ao redor já a perderam, como disse em verso célebre um inglês idem, Rudyard Kipling, nascido em Bombaim e ganhador, em 1907, do primeiro Nobel de Literatura destinado a escritor de língua inglesa.

Seriam mesmo recortes corriqueiros do nosso atribulado mundo, caso os dois homens não tivessem passado pela experiência de dor considerada a mais aguda e devastadora entre humanos: enterrar os filhos. O primeiro no passado mais distante, o segundo recentemente, lidaram ambos com dois extremos causadores de tragédia: o congelamento e a combustão. O primeiro corria o risco de também enregelar a alma; o segundo de se consumir em desespero. O brasileiro ficou sem a filha Bianca, 25, que se casara na véspera e viajava a Paris em lua de mel, a bordo do avião da Air France. O imigrante ficou sem o jovem filho, funcionário na loja que geria, atingido mortalmente durante os protestos incendiários .

Diante do sofrimento nós humanos podemos reagir de maneiras distintas e surpreendentes, destrutivas ou criadoras. As duas pessoas a quem me referi escolheram as segundas opções. Como elas, bem pertinho de nós, há outras, das quais destaco pela proximidade Paulo Gimenes e Heloísa Bittar Gimenes, Valéria Mazzucatto, Sônia Menezes Pizzo, pai e mães que perderam seus filhos mas conseguiram içar a si mesmos das zonas escuras e sufocantes onde foram lançados de repente, sem que soubessem por quê. De diferentes formas eles alcançaram transformar dor em cuidado, imobilidade em ação, cinzas em novas fagulhas de esperança para si e outros. Fizeram poesia no sentido mais profundo e antigo que os gregos deram a esta palavra, poiesis, ou seja, recriação a partir da dor, não necessariamente com palavras. Do que restou de suas existências mutiladas, construíram, com suas reservas de amor, poemas vivos que mobilizam as almas de quem os lê com admiração e respeito. São humanos exemplares.

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