O bispo e o espírita

Por: Everton de Paula

Contaram-me esta história e me disseram ser verdadeira. Não tinha com quem verificar. Resolvi escrevê-la para que algum leitor, dos poucos que tenho, possa confirmar sua veracidade. Nada de importante, não, apenas curiosa e de um sabor delicioso, tendo em vista os personagens envolvidos.

Talvez fosse a década de 1970. O bispo de uma cidade, em seu exercício diário e já costumeiro de ler trechos da bíblia, fora aos poucos se afeiçoando às palavras. Não apenas ao trecho sagrado em si, às parábolas, aos ensinamentos santos, aos evangelhos, às profecias... Não, muito mais e curiosamente mais que isto: foi tomando gosto pela construção frásica, pelo arcabouço literário, pela sintaxe que produzia efeitos de encantamento no espírito humano. Enfim, pela linguagem escrita, pela literatura enquanto arte e não apenas canal de mensagem entre os céus e os simples mortais. Mas o que lhe chamava mesmo a atenção era a etimologia, a história e evolução das palavras. Encantava-se, por exemplo, saber que a palavra corda derivava do grego kamelós que significava “corda com que se atam as velas dos navios”. Ora, se assim fosse, ter-se-ia mais sentido e mais lógica a frase “É mais fácil passar uma corda pelo buraco de uma agulha” do que “um ‘camelo’ pelo buraco de uma agulha”... Mas estaria certo este raciocínio, a sua pesquisa?

Teve dúvidas. Mais dúvidas ainda quando se deteve ante o vocábulo cadáver, talvez oriundo da frase latina caro data vermibus (carne dada, jogada aos vermes). Seria isto mesmo? Teriam ocorrido os devidos apócopes ou abreviações ao longo da história? Simples assim?

O melhor seria consultar um professor, um filólogo. A cidade onde se instalara a diocese tinha sua faculdade de filosofia, ciências e letras, onde se destacava um professor de Filologia Portuguesa, o doutor J.A.P.P. O leitor há de me perdoar por empregar iniciais em lugar de seu nome completo; é que ainda preciso comprovar a veracidade desse relato.

Pois bem; o bispo convidou um velho e distinto amigo católico, mas não clérigo, que morava a um quarteirão da catedral. Era um digno representante de tradicional família da cidade, os T.

Resolveram, ambos, consultar o citado professor doutor em Letras. Claro, telefonaram antes, marcaram dia e hora, no que foram atendidos mui gentil e calorosamente, dado o docente universitário e toda sua família serem católicos fervorosos praticantes.

Molto bene! No dia e horário aprazados, o bispo e seu amigo rumaram à casa do distinto professor, aliás um belo casarão que ficava próximo, acho que duas quadras de um hospital central da cidade. Ao chegarem, tocaram a campainha. A pessoa que os atendeu mostrou-se surpresa com o aparato da vestimenta do bispo, mas de forma muito respeitosa os recebeu e lhes solicitou adentrar a casa.

Atenção, querido leitor: saiba que meu narrador me disse que a esta altura da história, nem bispo nem seu amigo conheciam pessoalmente o ilustre mestre. De modo que tomaram o dono daquela casa que visitavam como o próprio professor J.A.P.P.

Entraram, dirigiram-se à biblioteca, sentaram-se educadamente e ouviram com certa estranheza o anfitrião lhes perguntar:

- Em que posso lhes ser útil?

Ora, a pergunta não tinha cabimento, uma vez que informaram antecipadamente o porquê da visita.

O bispo passou uma varrida de olhos por sobre a mesa, em cujo lado oposto, à sua frente, sentava-se aquele que julgava ser o doutor em letras. O bispo muito estranhou em ver espalhados vários livros com títulos que não traziam qualquer relação com os ensinamentos da velha e boníssima Igreja Católica Apostólica Romana. Lá estavam O evangelho segundo o espiritismo, Há 2.000 anos de Francisco Cândido Xavier, Violetas na janela ditado pelo espírito Patrícia, psicografado pela médium Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho... Outros ainda tratavam de mediunidade, apometria, a cura pelo passe, reencarnação...

Pronto: reencarnação! Esta palavra era definitiva. Algo de muito errado estava acontecendo naquele momento. Mas o anfitrião era um senhor tão gentil, tão prestimoso que não cabia um “comportamento atrevido que demonstrasse algum viés de desapontamento ou algo semelhante”, pensou o inteligente e também muito educado bispo da cidade. Mas como as boas almas se entendem, independentemente da religião que professam, o bispo limpou a garganta e perguntou delicadamente:

- Estou tendo a honra de falar com o professor doutor J.A.P.P.?

O dono da casa abriu um simpaticíssimo sorriso, entendeu o engano e explicou:

- Este querido professor mora a um quarteirão daqui, na mesma rua, numa casa de esquina como a minha, e de aparência até semelhante.

“E esta agora!”, pensou o bispo, que imediatamente pôs-se a explicar a situação. Por ser gentil, o anfitrião, cujos primeiros nomes eram iniciados por C.M., mostrou ser também um estudioso da etimologia, um entendedor de história e evolução das palavras. E ficaram os três ali, numa conversa muito agradável sobre trechos da bíblia. Claro, claro, respeito mútuo regado a um chazinho e biscoitinhos de polvilho. C.M. entendia profundamente certos trechos da sagrada escritura e deixava entrever seu extenso conhecimento etimológico.

Mas a coisa não podia continuar. Deram-se as mãos, agradecimentos e pedidos de desculpas e eis o bispo e seu amigo de volta à calçada, agora rumo à casa do professor, que morava com sua esposa e as oito lindas e meigas filhas.

Na pequena caminhada, o bispo, empertigando-se, não pôde deixar de falar ao seu amigo uma frase que revelava, no íntimo, admiração e sutil ironia:

- Até que para um espírita, este bondoso e inteligente senhor mostrou-se um profundo conhecedor da história das palavras e da sintaxe portuguesa, não é mesmo?

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