‘Falta algo na minha vida’, a protagonista

Por: Maria Luiza Salomão

140787

“o gêmeo imaginário remonta à relação mais arcaica, sendo expressão da incapacidade de tolerar o que não esteja inteiramente sob controle. A ação do gêmeo imaginário é, portanto, negar uma realidade distinta da própria pessoa”.
1950, Bion, psicanalista, in
Estudos Psicanalíticos revisados.


A psicanalista didata Ana Rita N. Pontes, atual presidente da SBP de Ribeirão Preto e Membro Associado da SBPSP, irá comentar hoje o filme Encontro com o passado, classificado como “suspense”. Seguimos a protagonista, em uma sequência de imagens, sensações e percepções que contrariam as percebidas pelo marido e filhos. A diretora, hábil em usar recursos cinematográficos, conduz o espectador para dentro do horror que invade Jeanne ao questionar o que vê, sem saber se o que vê é ou não real, pessoas, lugares familiares, íntimos, até então.

O que acontece se passamos a não confiar nas próprias percepções? Quando somos excluídos do chamado senso comum? A protagonista ri, aliviada, quando vai até a Academia e reconhece o local e as pessoas. Sinal de que vive um drama íntimo, pessoal. Questão ligada à identidade, a sua e a dos mais próximos.

A cor sépia marca os momentos em que Jeanne oscila entre o imaginário e o real, em que confere as fotos do marido e dos filhos, e estranha a casa como vê fora das fotografias. Há algo que Jeanne sente como perdido, que lhe faz falta, e que parece ter gerado o desejo de escrever o romance autobiográfico. O amarelo é a cor de outro tempo, de uma “outra cena”, como diria Lacan, o psicanalista francês. O espectador segue os dois tempos, psicológico e real, vividos pelas atrizes protagonistas e pela criança de 10 anos, guia de Jeanne nas lembranças.

O editor que Jeanne procura para a publicação do seu romance diferencia o lembrar, que evoca afetos, sensações, e o descrever em detalhes e lhe diz, sem rodeios, que o romance está fragmentado, com imagens isoladas, sem uma história clara. Jeanne escrevera biografias apreciadas pelo editor, mas insiste em escrever sobre sua vida. Entretanto, ela não tem lembranças oriundas de antes dos oito anos de idade e estas irrompem, após a conversa com o editor, como clarão de luz. Rompem a barreira do esquecido, não se encaixam na percepção que Jeanne tem, até então, da sua vida.

Parece que o ser humano não funciona como São Tomé, no dito popular, tipo “ver para crer”. Percebemos, segundo o psiquiatra do filme, “o que cremos ou o que conhecemos”. O Desconhecido nos cega, ou estamos eventualmente cegos para registrá-lo, na ausência de referências anteriores.

O que falta à protagonista não é uma peça de um quebra-cabeça. Falta a percepção de uma nova realidade, com a qual terá que conviver, algo que é ela (que ela não sabia que sabia), e estava nela como um duplo, no seu imaginário.

“Duas mulheres em uma” pode ser o sonho de qualquer homem, mas é um pesadelo para quem se vê duplicada, e vê duplicados aqueles a quem ama, ora com um rosto, ora com outro. Paro aqui para manter o suspense. Não posso refletir sobre as cenas finais, que aguçarão, certamente, a curiosidade nos espectadores.

Posso deixar, entretanto, duas questões. É possível uma família guardar um segredo, o “tabu familiar”, excluindo um dos membros, privando-o de conhecimentos (que o restante da família sabe, mas omite) sem mutilá-lo emocionalmente? O que acontece, quando há uma fratura na identidade, e a pessoa segue vivendo, como dá, isolada, na tentativa de “auto-cura”? Para esta e outras questões, vale comparecer ao Centro Médico, neste sábado, às 14:30h.


BIOGRAFIA

Marina de Van

Atriz, diretora e escritora, Marina tem 40 anos. Em 2003, escreveu, atuou e dirigiu Dans ma peau, Melhor Filme estrangeiro no Fant Asia Film Festival. Encontro com o Passado, de 2009, foi escrito e dirigido pela diretora, apresentado em Cannes (fora da competição), e lançado em 2010 diretamente em DVD. As duas mulheres que representam a protagonista Jeanne, Monica Belucci e Sophie Marceau, compareceram à estreia do filme vestidas quase iguais, em vermelho. Ne te retourne pas, o título em francês, “não se volte” (não olhe para trás), é a fala da mãe da protagonista, tentando evitar que Jeanne saiba do seu passado.

Sinopse de Encontro com o Passado: Jeanne (Sophie Marceau), escritora, casada, dois filhos, começa a notar inquietantes mudanças em sua casa, e em seu corpo. Ninguém à sua volta parece perceber. Sua família diz que esses receios são causados pelo stress ao terminar seu primeiro romance autobiográfico, mas Jeanne sente algo mais profundo e perturbador, que não consegue identificar. Não tem lembranças suas antes dos oito anos de idade, devido a um acidente. Aos poucos estranha tudo: o marido, os filhos, e até a mãe, que parecem outras pessoas, estranhas, seu próprio rosto é o de outra mulher. Uma foto na casa de sua mãe a leva para a Itália. Ali, já transformada em outra mulher (Monicca Belucci), Jeanne vai descobrir o estranho segredo de sua verdadeira identidade.

Serviço
Título: Encontro com o Passado
Direção: Marina De Van
Duração: 110 minutos
Elenco: Sophie Marceau, Monica Bellucci, Andrea Di Stefano, Thierry Neuvic, Brigitte Catillon.
Onde: Sábado, 14h30 no Centro Médico de Franca.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras