Fuga

Por: Caio Porfirio

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Sem ninguém por perto. Sem ninguém olhando. Sem vento soprando. Sem chuva caindo. Apenas uma figura além. Tão além que se diluía na distância.

E eu aqui, sentado neste meio fio, tamborilando os dentes com os dedos, deixando que o pensamento voe. E ele não voa. Nem para o passado, nem para o futuro, nem se detém no presente.

Dá-me vontade de levantar o braço e gritar para a figura além, sempre mais fugidia. Chamá-la.

Mas me detenho. Para que chamá-la? Se ela viesse o que eu diria?

O silêncio nesta rua deserta, nestas casas fechadas que me olham, neste tempo parado e que corre mudo, nesta neutralidade total, é mais acolhedor.

É quando a mão dela toca-me o ombro. Viro-me, surpreendo-me, levanto-me.

- Vamos.

Fitamo-nos. A palavra me saiu sem pensar:

- Vamos.

Mãos dadas, fomos andando. Apressamos os passos. Paramos. E, numa desesperada resolução, corremos, corremos, alucinadamente fugindo de nós mesmos.

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