Santosha

Por: Jane Mahalem do Amaral

O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta...

Alberto Caeiro
(heterônimo de Fernando Pessoa)


Santosha é uma palavra sânscrita cuja tradução mais comum é contentamento. Ela faz parte dos Nyamas, preceitos de regras de conduta que aparecem dentro do Sistema do Yoga. A ideia é cultivar o contentamento no mais alto grau para manter a mente em equilíbrio.

Em nosso mundo atual a palavra top não é contentamento, mas sim, felicidade.

Estamos todos em busca dela. Nos outdoors, as propagandas se municiam ferozmente e garantem que a felicidade está ali, na compra do carro novo ou até na última novidade do sabor do sorvete.

Mas não seria a mesma coisa? Contentamento e felicidade não seriam sinônimos? Parece, pois quem está contente deverá estar feliz e quem é feliz, provavelmente, vive sempre contente...

Não, a equação não é tão simples assim. A felicidade, na nossa visão ocidental e consumista, é algo sempre a conquistar. Ela nunca está aqui e agora, está a alguns passos, geralmente envolta no dinheiro ou no poder. Por felicidade entendemos algo que podemos ter se nos empenharmos de verdade. Com isso, geralmente queremos dizer que temos que trabalhar muito, juntar bastante dinheiro para fazer aquela viagem dos sonhos ou para comprar a mais nova tecnologia lançada no mercado. Assim, vamos pulando de sonho em sonho em busca da tal felicidade. Podemos até nos lembrar daquele antigo soneto do poeta Vicente de Carvalho: “ Essa felicidade que supomos, árvore milagrosa que sonhamos, toda arreada de dourados pomos. Existe sim: mas nós não a alcançamos porque está sempre apenas onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos.”

Contentamento, ao contrário, é não desejar nada e simplesmente estar satisfeito com aquilo que se tem. É sentir-se abençoado pela vida de cada dia, manter-se em paz, aconteça o que acontecer. É desapegar-se do desejo. Libertar-se, deixar de carregar o dever de conseguir. É o despertar da consciência para a clareza da transitoriedade da vida. E, ao contrário de que muitos possam pensar, não se trata de viver de forma passiva, preguiçosa, cultivando a falta de iniciativa. O contentamento demanda uma condição extremamente positiva e dinâmica da mente frente a vida. Para estar contente com o agora é necessário um constante estado de alerta, uma determinação lúcida e um olhar que vai além da superfície. Fácil ou difícil não são palavras para definir o contentamento, já que também todo o movimento da vida ora é fácil e quantas vezes, difícil.

Santosha é aceitação e não acomodação. Aceitar, de verdade, sem restrições, aquilo que a vida nos oferece é caminho para o crescimento espiritual.

Creio que assim são os artistas, os poetas, seres mais próximos da consciência divina.

Fica, então, mais fácil compreender Alberto Caeiro que nos fala do seu olhar azul como o céu e calmo como a água ao sol porque não interroga, nem se espanta...

E ele ainda complementa, nesse mesmo poema: “Porque tudo é como é e assim é que é...”

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