O espírito da coisa

Por: Maria Luiza Salomão

“não há mérito em poesia obscura, ou linguagem obscura. (...)(o importante é) se o poeta ou escritor está se expressando na linguagem mais clara que ele conhece - se acontece de ser obscura, ou se é apenas para esconder algo frente ao leitor.”

Bion,
psicanalista inglês.


Um filme (ou livro) de difícil compreensão, de obscura linguagem, pode ser oportuno para uma travessia significativa de autoconhecimento. A Arte pode vir a ser um instrumento a ampliar nossa compreensão da complexidade da Vida (interior e exterior). Em uma sessão de análise também vivemos algumas experiências no escuro, com medo e sofrimento. Angustiados, conhecemos (ou re-conhecemos) cantos da alma, entre assombro e terror. Como Jesus na cruz, quase que falamos: “afasta de mim este cálice/de vinho tinto de sangue” na Vida (ou na Arte). Tentamos, assim, negar a Dor, o Desespero, o Horror. É natural, é humano. Até Jesus, na Cruz.

Ana Rita N. Pontes, presidente da SBP de Ribeirão Preto, escolheu um filme complexo para comentar no Cinema & Psicanálise: Encontro com o Passado. Controverso, segundo os sites cinematográficos.

A linguagem de suspense do filme sugere, via música e imagens, um filme de Terror, mas é adequada ao tema, em que a protagonista vive uma situação traumática na relação com a mãe em tempos precoces do seu desenvolvimento. Ana Rita foi hábil em traduzir imagens em palavras, bebidas pela plateia em atenta atitude, em entendimento e gratidão, multiplicando contribuições à análise, em afetiva interlocução, psicanalista e espectadores.

Somos todos - sobreviventes nas batalhas com que nos defrontamos intimamente, heróis anônimos. Por vezes não conseguimos uma linguagem expressiva, clara, que dê vida às experiências interiores de modo a se tornarem compartilháveis. Artistas (psicanalistas também) buscam o “êxito na linguagem”, profundidade cristalina na mensagem, que consiga traduzir os complexos sentimentos. Ainda mais, uma transdução, ou uma transição para um nível mais elevado de significação.

No tradicional cafezinho-com-pipoca, entre risos e alívios, após a exibição do filme, ouvi ainda bem que vocês estão aí, psicanalistas, para a gente conversar! Muitos que encontrei depois reiteram o desejo de ver o próximo Cisne Negro 17/09, na análise de Fátima C. R. dos Santos. Querem ir fundo na compreensão do negro cisne que habita o branco cisne. Essa duplicidade da alma!

Este é o espírito da coisa conversar sobre o campo que se abre infinito, na Alma, ao analisar os Filmes. E nos depararmos com o que nos assombra, restringe, ressoa, percute, explode e repercute em nosso Corpo, na Família, no círculo de amizades, na Sociedade.

O Espírito da Coisa, capturado pela plateia francana, medra além do que esperávamos enquanto Grupo do Cinema & Psicanálise. Útil e proveitoso compartilhar experiências, principalmente aquelas doídas e quase inexprimíveis!

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