Inocência

Por: Eny Miranda

“Um ninho para seus ovinhos” -dizia a tira de papel colada na tampa de um pequeno pote plástico. Providenciara-o a menina que o exibia, compenetrada, à avó.

Poucas semanas antes, a avó, preocupada com possíveis infestações de ácaros e piolhos, pensara em desestimular a construção de novos ninhos de rolinhas, em sua varanda. E eis que, agora, lá estava a neta, apiedada daqueles dois ovinhos órfãos, expostos no ninho (afinal, construído no vaso de samambaia), propondo um novo lar para as futuras, ora embrionárias desaquecidas, aves.

- Quem sabe, a mãe não quer mais o ninho velho e vai gostar deste? Eles têm de ficar quentinhos o tempo todo, senão morrem. Disse-o, enquanto abria a tampa do pote. Dentro, papéis macios e pedaços de pano atoalhado formavam um seio acolhedor.

A avó tentou demovê-la da ideia. Se a mãe sumira havia já uns três ou quatro dias, provavelmente não viria mais...

- Então, eu mesma choco os ovinhos - afirmou, para espanto da avó - porque os filhos não podem ficar abandonados. Pega eles pra mim, vovó? Por favor... Estão no frio, tadinhos... Assim, vão morrer... (Nesse momento, é possível que o espírito de Rousseau tenha passado por ali, com um sorriso maroto nos lábios).

A avó, esquecendo-se momentaneamente do horror das minúsculas, quase invisíveis, hordas de piolhos e afins que, não raro, infestam ninhos abandonados, passou a considerar o pedido da neta. Imediatamente depois, porém, lembrando-se dos férteis, intrometidos, insuportáveis... bichinhos, ponderou que não seria razoável levar para dentro de casa ovos cheios de possibilidades de “sarnas” e quase nenhuma possibilidade de vida. Mas a neta não fez por menos: Você tem coragem de deixar os filhinhos aí, no vento frio? E se o gato vier?

Pois bem, depois de retirados do ninho e cuidadosamente revistados, os ovinhos foram passados à neta que, zelosa, mãos em concha, os recolheu e - surpreendendo mais uma vez a avó - levou-os, não ao seio por ela aberto entre guardanapos e toalhas, mas ao banheiro. Lavou-os, demoradamente, com esponja e sabonete; desinfetou-os com álcool em gel; acomodou-os -agora, sim - no aconchego de seu amor criança, aninhando-os devagarzinho - olhar carinhoso, quase maternal - no macio interior do pote, que tampou com delicadeza.

Passou, então, a “chocar” aquele ninho, sistematicamente, com o calor da compaixão - na casinha de bonecas, sob uma velha manta de lã, durante o dia; aos raios oblíquos do sol, à tardezinha; sob as cobertas, estreitado entre os braços, à noite - até o momento de ir-se embora (quatro dias depois), quando o deixou aos cuidados da avó:

- Faz do jeito que eu fazia, até os filhinhos nascerem, tá, vovó? Se eu levar os ovinhos, mesmo assim, no ninho, pode ser que eles não suportem a viagem...

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