Standby

Por: Everton de Paula

Eu me lembro bem de quando comprei nossa primeira geladeira com freezer. Coloquei-a na cozinha. Tudo nela funcionava a contento. Apenas um pequeno detalhe passou a me incomodar: havia uma luzinha vermelha que não se apagava nunca, no painel externo de controle. Era uma novidade nos eletrodomésticos modernos: vinham com um dispositivo a que chamavam de standby. É a tal da luzinha vermelha que fica permanentemente acesa, indicando que o aparelho está ligado, mas não funcionando. Está prestes a funcionar quando o usuário assim o desejar. Está “adormecido” apenas, na explicação do vendedor.

Aos poucos, fui trocando, como é natural num mercado de consumo, todo aparelho eletrodoméstico e eletrônico de casa por outros novos e modernos: TV, vídeo, DVD, microondas, geladeira, computador... De maneira tal que, ao apagar todas as luzes da casa para dormir, umas tantas luzinhas vermelhas permaneciam acesas, como a dizer: “Estamos aqui, apenas cochilando, mas basta você ligar o on e tudo funcionará. Estamos adormecidos, mas alerta!”

E aquilo começou verdadeiramente a me incomodar. Gastaria força? Teria propriedades técnicas para fazer o aparelho funcionar sozinho? Meu Deus, até o telefone sem fio veio com standby! Lembra uma noite de festa junina, naquele momento final do festejo, quando todos se vão para suas casas, restando apenas a noite escura, fria, pontilhada de estrelas geladas, de cristal; e o cricrilejar ininterrupto dos grilos noturnos. Todas as lâmpadas apagadas, mas ainda, bailando no ar, pequenas brasinhas ensaiando coreografia inimaginável. É este o cenário noturno de minha casa. Para onde olho, há uma luzinha vermelha me observando, que não se apaga nunca.

Olhinhos diabólicos sugerindo maldades iminentes; semáforos que dizem “Pare!” à minha vontade de dormir. Anseio pelo verde que não vem. Sala, copa, cozinha, quarto... Nada escapa às luzinhas vermelhas que não se apagam nunca.

Foi quando chegou o dia de meu último aniversário (epa!). “Último” no sentido de recente, agora mesmo, no passado, e não o “último” no sentido de que não haverá outros ainda. (Epa de novo).

Mais que no período da Páscoa, do renascimento espiritual ou coisa que o valha, fazer aniversário depois de certa idade leva a profundas meditações. Afinal, esses aniversários vêm com algumas marcas que os tolinhos otimistas chamam de “ganhos da terceira idade”: os cabelos caem, os dentes caem, as bochechas caem, os músculos caem... Mas aí vem o homem e descobre a peruca, os implantes, as pontes fixas e móveis, os silicones, o botox, as academias, as multivitaminas, pós e líquidos que combatem os radicais livres... Tudo pela aparência; o físico corresponde pela metade às nossas expectativas, mas o mental está a mil. Curiosa esta medida da providência: quando o corpo está em pleno vigor, a mente é tola; quando a mente é sábia, não há corpo que a acompanhe! Resta a alma. Li em um cartaz algo parecido a “Se a alma é bela, a mão é hábil.” Sei que tem mais alguma coisa no texto, mas não me lembro exatamente o quê. É uma frase de efeito, embora não saiba a extensão de sua veracidade.

De modo que às vezes sinto me encontrar em estado de standby. Parece que em certos momentos tornei-me uma daquelas luzinhas vermelhas , apenas com a diferença de que um dia me apago. Encontro-me, nessas ocasiões, em standby. Estou com os membros adormecidos, estou quieto, imóvel; mas, tenham a certeza de que bastará alguém ligar meu on e me tornarei verde, eficiente, eficaz, astuto, perspicaz, sutil, direto, produtivo... Não exijam, porém, que eu esteja assim todos os momentos do dia.

Ligo minha luzinha vermelha e envio a mensagem: “Gente, ainda estou aqui e, creiam, sou capaz de produzir como um jovem de 20 (não da década, mas de 20 anos de idade). Tudo o que preciso limita-se a que alguém ligue meu on e aponte a direção a seguir, as regras do jogo, as normas, quem é o chefe, como pensa o chefe... E lá vou eu! Engraçado ser standby. Você economiza energias, racionaliza atitudes, otimiza ações. Faz exatamente aquilo que é necessário fazer, nem mais nem menos. Quando buscam outros recursos, você liga a luzinha vermelha e se mostra presente. Adormecido, mas presente.

Às vezes, encontro pessoas que se incomodam com o meu verde. Não me preocupo com isto. O verde realmente ofusca as pessoas amarelas amarelas de medo, de subserviência, de bajulação. O verde perturba porque mostra que você está na ativa num mundo repleto de competições e de gente doida para puxar seu tapete.

Podem se incomodar com o meu verde. Podem até apagá-lo, se quiserem, porque me restaria o vermelho. Mas enquanto estiver em standby, não se aproximem com outro intento que não o de ligar meu on.

E quando meu vermelho se apagar, um dia distante, talvez, ou mais perto do que penso, quiçá, entrarei na dimensão do standoff. Fora do ar. Mas, pensando bem, satisfeito com o que fiz e concretizei, se é que alguém possa se sentir satisfeito na condição de duro, gelado, decomposto... Aí, o verde outra vez ficaria só para quando Deus quiser!

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras