Dor

Por: Marco Antonio Soares

Dirijo devagar, desviando de buracos e lombadas, evitando qualquer coisa que cause solavancos. De quando em quando, observo-o deitado no banco traseiro do carro. Apesar dos catorze anos, ele ainda traz o mesmo olhar melancólico do filhote que corria pela casa, arrastando tapetes, destroçando almofadas, rasgando meias e sapatos. Embora travesso, não sofreu pancadas, as crianças e a mulher jamais permitiram, pelo contrário, infantilizavam a voz, passeavam as mãos sobre a pelagem densa e negra de sua fronte. Cresceu mimado.

A vida de filhote foi curta, em pouco tempo a natureza fez crescer-lhe o corpo, atiçou-lhe a altivez, engrossou-lhe o latido, que apavorava vizinhos, evitava intrusos, aguçava a curiosidade das crianças. Foram catorze anos de convivência, de fidelidade, de avisos.

Agora, seus ganidos me avisam que alguma coisa lhe rói a carne, os ossos. Tento acelerar o carro, impossível. Dou conta de que o destino se aproxima, e o veículo segue mais lento. Enfim chegamos, abro a porta, recuo o banco do carona, ele salta do carro, abana a cauda, parece reviver o cão que foi um dia, mas algo lhe contorce o corpo, afrouxa-lhe as forças. É necessário carregá-lo, para isso emprego forças que não possuo, até que finalmente ganho o interior da clínica.

A moça do atendimento pede que eu preencha um documento, entro em uma sala pequena, meu cachorro repousa em uma maca de metal, forrada com papel.

O homem de branco, lentamente, explica-me todo o procedimento. Meu olhar permanece fixo em um ponto qualquer, a mão em formato de pala esconde o verdadeiro sentimento que brota em mim. Finjo escutar tudo, finjo entender tudo, convidam-me para alguma despedida, ignoro, saio apressadamente. Dirijo lentamente, não evito buracos nem lombadas, sinto que alguma coisa me rói o coração, a alma, mas não há nem um ganido, tudo é silêncio, e meu destino ainda está longe, muito longe.

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