Literatura infantil em Franca

Por: Sônia Machiavelli

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Há um segmento do magistério que deveria merecer maior consideração de todos - o das alfabetizadoras, função de importância seminal no processo de desenvolvimento cognitivo que ler e escrever promovem. Impossível pensar a escola sem elas. Mesmo quando já cumpriram seu papel e saíram da cena física, permanecem com as crianças, que as carregam na sua mochila afetiva pela vida, misturadas a cheiro de borracha, rabiscos coloridos, gosto de merenda, ponta de caneta mastigada, estojo com tampa desenhada e alguma flor furtiva entregue com o coração aos saltos. Quase não se encontram adultos que não se lembrem de suas primeiras professora e cartilha.

E a cartilha de algumas décadas atrás, quando as crianças iam para a escola aos sete anos, era única, produzida em preto e branco, com capa pouco motivadora. Deste passado bem pouco restou, até porque mudou o método e o material didático hoje disponível na rede pública de ensino atende bem à proposta de alfabetização, segundo me dizem. Mas eis que neste universo onde as coisas pareciam já há muito estáveis, de repente aparece alguém que não se contenta com o estabelecido. Que sonha um plus para as crianças. Aposta no lúdico e no colorido. Busca caminhos mais prazerosos para desvelar o abecedário. Cria cenário para exibir combinações infinitas de sons que produzem sentidos. Bota fé na própria ideia e vai à luta com aquela serenidade dos que sabem que o sonho genuíno pode demorar mas um dia vai se concretizar. É o caso da autora do livro cuja capa ve sê na ilustração.

Em parceria com o filho, Pedro de Pádua Amatto Goulart, apenas 11 anos, Renata publicou no ano passado O Casamento da Tia Letrinha. Ela escreveu, ele ilustrou. O texto começa colocando em cena a protagonista da história: “ Tia Letrinha era solteira/ E vivia a sonhar/ Com um rapaz elegante/ Para um dia se casar” . E prossegue: “ É que quando Tia Letrinha/ Estava na flor da idade/ Cuidou das 26 letras-sobrinhas/ E deixou passar a mocidade”. Como leitora, fui logo fisgada na minha porção menina, que resiste bravamente, e me deixei envolver. Quando vi, tinha lido toda a história. Porque há ficção bem engendrada, enredo estimulante, sugestão de afetos, personagens, estrutura narrativa tradicional com começo, meio e fim. Ou seja, há criação literária que caminha junto com intenção didática. As duas propostas foram contempladas pelo olhar criterioso dos que colaboraram com Renata e Pedro para que os projetos editorial e gráfico, bem como a necessária revisão final, tivessem a marca do trabalho bem realizado: Everton de Paula; Paula Andrea Zúñiga Munoz; Ana Lívia de Matos; Olívia Salgado Costa; Munira Rochelle Nambu.

O livro é um “recurso que auxiliará no processo de aquisição da língua falada e escrita por favorecer um trabalho didático e social”, diz a autora na apresentação da obra que ela dedica ao filho e parceiro, aos pais e familiares, aos amigos e “ a todas as crianças do mundo, principalmente os meus alunos.”

O que comove em Renata é, além do inegável talento, a garra da qual nos damos conta quando ela começa a contar, em tom suave de voz, sua odisseia à procura de patrocínios. E nos sensibilizam as visíveis alegria e gratificação que brotam de seu relato: a obra já rendeu muitos frutos, encurtando o tempo de alfabetização e permitindo às crianças a descoberta das possibilidades das letras se transformarem em milhares de palavras construtoras de relatos.

O livro por si só merece atenção demorada de pais e educadores. Mas há que se referir ainda um projeto paralelo a ele, desenvolvido pela autora que criou personagens e esquetes relacionados ao contexto da história. Dele professores podem se valer para ampliar as possibilidades de expansão do vocabulário nesta fase importante de aquisição de novos termos.

Renata e Pedro pertencem a uma família maior, a dos criadores de mundos onde a criança pode transitar com a segurança dos caminhos construídos com olhar amoroso. Pedro e Renata pertencem à tribo dos artistas e àquele tipo de seres que não desistem nunca de lutar. A prova está no novo livro, agora de iniciação à matemática, pelo qual também batalharam muito, buscando apoios enfim obtidos depois de árdua peleja. Ele logo será lançado e a Sapataria do Livro precisará abrir mais uma caixa para acolher os novos autores francanos.


PARCERIA FRUTÍFERA

A mãe e o filho

É muito auspicioso encontrar mãe e filho produzindo juntos com resultados tão positivos, pois não é muito comum as relações familiares favorecerem parcerias frutíferas no trabalho. No caso de Renata Gabriel Amatto e Pedro de Pádua Amatto Goulart, deu muito certo este “concerto a quatro mãos”.

O filho ilustrador tem traço bem definido, boa noção de espaço, capacidade para conferir movimento às figuras e objetos, bom gosto na harmonização das cores. E, o que faz a diferença, certo traço de humor sutil muito pertinente ao universo infantil, que ele explora com personalidade. Também soube ler a história que sua mãe conta no livro e traduzi-la em imagens sem muitas licenças poéticas, de forma que nunca foge ao tema desenvolvido pelo enredo curto mas interessante.

A mãe escritora é professora de Educação Infantil nas redes pública e particular. Sempre gostou de ler e escrever. Na escola pública, especialmente, sentiu necessidade de estimular seus alunos . Via o desenvolvimento mais rápido das crianças da escola particular, cercadas por livros bonitos e interessantes, e quis levar às outras algo que pudesse ajudar a desenvolver o gosto pela leitura. Tendo lido O Aniversário do Senhor Alfabeto, de Amir Piedade, veio-lhe a ideia de escrever O Casamento da Tia Letrinha, com personagens ágeis, alegres e falantes, traços pertinentes à infância.

Renata e Pedro são francanos, vivem e trabalham na cidade.


Serviço
Título: O casamento da Tia Letrinha
Gênero: Literatura infanto-juvenil
Autora: Renata Gabriel Amatto
Ilustrador: Pedro de Pádua Amatto Goulart
Ano de publicação: 2010
Editora: Unifran
Apoio Cultural: Feac/ Prefeitura de Franca

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