Mistérios

Por: José Borges da Silva

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Desde o tempo em que os relâmpagos e trovões assombravam hominídeos nas savanas africanas, despertando deuses no recôndito dos seus espíritos, até a era das grandes naves tripuladas, em que fenômenos luminosos ainda intrigam pilotos de aviões, os mistérios acompanham o homem. Não os mistérios essenciais “Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?”, cada vez mais ameaçados pelos progressos da Ciência. Nem as assombrações, hoje fora de moda, que povoaram a adolescência dos cinquentões atuais. Refiro-me aos fenômenos simples, como fogo fátuo, estrelas cadentes, e os próprios relâmpagos e trovões que buliam com a imaginação dos homens mais simples até meados do século dezenove, embora hoje estejam totalmente elucidados pela ciência. Em geral, mesmo os fenômenos explicados pela ciência permanecem misteriosos para a maioria da população. Assim, todos temos as nossas histórias de mistério para contar. Eu me lembro de uma noite em que voltava pra casa, por volta das vinte e três horas, após um serão na fábrica de calçados, algo comum no final dos anos 1960. Eu subia pela Rua Santos Pereira, em Franca, nas proximidades da Escola Caetano Petráglia, quando surgiu um clarão no céu. Era uma bola de luz que se movia de Leste para Oeste lá para o lado do Bairro Santa Cruz. A rua, que era meio escura, ficou clara como o dia de repente, por uns cinco ou dez segundos. Até hoje me intriga o fato. À época não dei muita importância, porque me pareceu que logo viria uma explicação científica. Mas o fenômeno sequer foi divulgado pelos meios de comunicação de então, os jornais e as emissoras de rádio. Muita gente que viu passou a relativizar o fenômeno, para evitar polêmica. Consideradas as dimensões e a velocidade do objeto, não se parecia com nada conhecido. Se eu conto a história a algum ufólogo, tudo parece óbvio: trata-se de um OVNI, dos muitos que andam por aí. Se a levo a um astrônomo, logo ouço referência ao tempo decorrido ou à possibilidade de se tratar de fogos de artifício, etc. Isso quando o experto não me olha desconfiado e evita opinar sobre o casoà Para mim a questão permanece um mistério. Embora confesse, devido ao tempo decorrido, às vezes me vem a vontade de rever os fatos... Claro que todo mistério deriva da nossa falta de compreensão do meio em que vivemos. Em outras palavras: da nossa ignorância em relação ao meio em que vivemos. Parece que a noção de mistério se transforma em dúvida científica ao longo da evolução humana. A diferença entre dúvida científica e mistério é o medo que acompanha este último. Há um senhor que aparece lá na rua de casa aos domingos vendendo sorvetes, para quem é um mistério o fato de a Lua acender sua luz à noite e permanecer apagada durante o dia. Ele não vive dizendo isso. Mas aborda o assunto se confia no interlocutor. Na conversa em que me contou sobre esse mistério, quis saber se eu acreditava que os americanos tenham ido à Lua. Não dei resposta de pronto, evitando ofendê-lo. Mas enquanto eu pensava na resposta ele já me veio com esta outra: “Ora, eles não dizem que a Lua é de pedra, cheia de montanhas? Então como é que eles entraram lá?” Naturalmente que não tive como responder. Acabei contando a ele a história da luz que vi sobre a cidade há várias décadas. E ficamos mais à vontade para continuarmos o assunto. Afinal, embora a ciência tenha a tendência de acabar com os mistérios, parece que eles persistem em todas as esferas da sociedade. A discussão sobre a existência de OVNIS é um exemplo, embora os expertos não o admitam.

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