Gavetas e Guardados

Por: Jane Mahalem do Amaral

“Eu não tinha esse rosto de hoje...”

Cecília Meireles


Essa semana fui remexer em caixas e álbuns de fotos. É uma verdadeira viagem no tempo.

As crianças pequenas, fotos da maternidade, a época da escola, a adolescência das filhas, vestibular, faculdade e formaturas...

A sensação é essa mesmo: como tudo passou tão rápido! E como, em muitas fotos a gente quase nem se reconhece mais... Quem era aquela quase menina, (24 anos, acho hoje, que era menina!) na maternidade com um bebezinho no colo... E o papai... tão novinho, esbelto e bonito... Mas como é que eu não me lembro de alguns detalhes tão importantes gravados numa memória seletiva e quantas vezes, cega para o real... Então vem um sentimento de remorso: será que eu não aproveitei bem aquele momento com tudo, mas tudo mesmo que ele me oferecia? Vontade de voltar, fazer e falar coisas que hoje eu sei, mas lá naquela foto eu não sabia...

Envolvida com a novela da vida, embaraçada nos afazeres cotidianos, preocupada com a carreira profissional, vejo a sequência das fotos passarem pelos meus olhos e me pergunto se vivi realmente o presente daquele momento... Será que lá se foram os anos sem a minha verdadeira presença?

Reencontro-me com Cecília Meireles: “Eu não tinha esse rosto de hoje... eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face?”

Mas o meu lamento hoje, difere da melancolia de Cecília: eu me pergunto é onde estava eu, com aquele rosto e com a mente tão cheia de projetos que talvez não tenha percebido intensamente o que passava pelas minhas mãos, o que escorria por entre os dedos...

Será que é assim mesmo para todos nós? Demoramos tanto para acordar que quase sempre é tarde demais para resgatar... Acho que olhando por esse viés, temos que concordar que uma vida é muito pouco para se aprender tudo... e por outro lado não são muitas as coisas que temos que aprender sobre a vida. Na realidade, elas são mesmo uma ou duas..

Antonio Prata, um dos colunistas da Folha de São Paulo, há algumas semanas, ao falar do ofício do cronista que se repete em várias crônicas, comenta: “A repetição não é necessariamente um defeito. Só temos duas ou três coisas a dizer sobre a vida e as vamos reconfigurando, polindo, tentando clareá-las ao longo do tempo.” Acho que ele tem razão: as coisas importantes para se aprender são bem poucas, nós é que nos confundimos no caminho, às vezes sem volta...

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