O índio de Tróia

Por: Mauro Ferreira

O homem branco brasileiro quase acabou com os índios. De vez em quando, algum ecologista de plantão aparece com alguns sobreviventes pela cidade, mais como folclore que ação prática para respeitar os direitos dos povos que nos antecederam nestas terras. Já dizia a Baby Consuelo que todo dia era dia de índio, tem até um dia comemorativo para eles, como também tem agora em Franca o dia do padre, do encanador, do cavaleiro, do mineiro, do jipeiro, enfim, de qualquer atividade ou profissão que possa angariar uma homenagem e, quiçá, alguns votos a mais na capanga, que nenhum vereador é de ferro.

Embora tenham dito que é a primeira vez na história que a Câmara tem um prédio próprio, o melhor seria dizer próprio e exclusivo, pois na verdade a Casa de Câmara e Cadeia foi o primeiro prédio público desta cidade, construído por volta de 1840. E casa nova não significa, de jeito nenhum, novos métodos, pois as velhas práticas clientelistas continuaram intactas, acho que desde o século XIX. Mas eu queria era falar dos índios e mudei para um assunto que só produz azedume, como a produção legislativa da nossa Câmara que, segundo o próprio presidente da Casa, tem muita “enrolation”.

Nos anos 60, uma conhecida que estudava no IETC arrumou um namorado que, segundo sua mãe e a torcida da Veterana, era um poço de encrencas. Como as recomendações maternas para cair fora daquele relacionamento não eram atendidas, a mãe houve por bem transferi-la para o Colégio das Freiras, já que na escola pública era impossível garantir que o sujeito não ia entrar na escola e namorar escondido.

A mãe conversou com a madre superiora e esta garantiu a total impossibilidade do sujeito entrar no colégio, as freiras eram muito rígidas quanto a isso e a segurança era máxima, igual à de Bangu I. Tranquila, a mãe transferiu a garota para o colégio religioso, certa de que havia afastado qualquer chance do sujeito aparecer por lá.

No dia 7 de setembro, a mãe foi assistir a parada comemorativa da Independência. Depois da fanfarra do Colégio Champagnat, chegou a vez do desfile do Colégio das Freiras. O mote daquele ano era uma homenagem aos índios brasileiros. Um imenso carro alegórico, como das escolas de samba, era empurrado pelas alunas do colégio, logo depois da fanfarra da escola. No alto do carro, as meninas todas vestidas de índias, embora com roupas pudicas. Para espanto da mãe, no ponto mais alto do carro alegórico, havia um único menino, parecendo um índio, um curumim. Sim, era ele mesmo, o tal sujeito que a freira disse ser impossível entrar no colégio e que a mãe queria ver longe.

Foi o primeiro e único índio de Tróia. Sem o cavalo.

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