A verde coreografia

Por: Maria Luiza Salomão

É sempre bom lembrar que a Vida é cíclica, o início toca o fim em qualquer experiência intensamente vivida. Como o Uróboro, “a cobra que come o rabo”, símbolo da eternidade. O agora é eterno, persiste guardado na lembrança, inapagável à passagem do Tempo. No Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Uróboro - “a cobra que morde o rabo” - é um símbolo do ciclo da evolução voltando-se sobre si mesmo, guardando as ideias de movimento, continuidade, autofecundação e, em consequência, eterno retorno.

Atravessamos, desde junho, o período de recolhimento invernal das plantas a seiva descendo às raízes. As folhas rarearam, tudo esteve seco. As plantas guardaram subterraneamente as suas forças, pouparam-se para o devir vigoroso.

Os tesouros foram bem guardados. Vislumbro as altas palmeiras imperiais, as velhas árvores de sibipiruna da Avenida Major Nicácio, cujas raízes fundaram-se na terra, sustentando a verticalidade (em bela e invisível simetria) dos galhos que buscam os céus. Estão enfolhadas e verdes, quando há apenas uma semana ou duas, suas copas ralas em troncos grossos, retorcidos, rugosos, desenhavam delicadas rendas verdinhas no poderoso azul-outono, no azul-inverno, profundos azuis dos céus. Guardaram umidades vitais, no íntimo, no mais fundo recôndito da terra.

A Primavera se aproxima e, com ela, a chuva de engravidar brotos, a criar cenários de ilusão, como se um milagre do dia para a noite. Tudo guardadinho nas raízes. Nada vimos destes processos ou sentimos através dos sentidos. Mistérios de vida recolhida, de vida que se prepara.

De repente, os verdes, o Verde. Verde-malva, verde-negro, verde-oliva, verde-paris, verde-cinza, verde-pavão, verde-piscina, verde-salsa, verde-abacate, verde-azeitona, verde-alface, verde-viena, verde-virgo, verde-jade, verde-garrafa, verde-imperial, verde-amarelo, verde-alga, verde-bebê, verde-água, verde-mar, verde-montanha, verde-azul. Incontáveis tonalidades de verde. O azul do céu empalidece no encontro com a eloquente verdura brasileira.

O Verde vai tonalizar as paisagens e os olhos. Quando o azul do céu se acinzentar, ganharemos os intensos verdes (e mais as flores).

A primavera está comendo o inverno que, antes, havia comido o outono, que comera o verão, e este teria comido toda a primavera passada. O Verão há de comer esta primavera de agora, depois de os verdes se fartarem de verdejar, depois das flores sarapintadas (e da sobrevivência das sementes aos frutos).

Coreografia sagrada da evolução, espiral em verde virtude.

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