Futebol e idade

Por: Everton de Paula

Para a criança, tudo começou com uma simples pelada no meio da rua. A bola era feita a mão, com várias meias enroladas e cerzidas na última boca. O gol não passava de duas pedras distanciadas algo de três metros. Em alguns lances, ficava difícil de saber se era bola fora, bola dentro, por cima... Não havia traves verticais nem travessão horizontal, nem rede, nem coisa alguma. Valia a imaginação se a jogada fosse bonita, desde ali no meio-de-campo, era gol mesmo, e não adiantava chorar dizendo que o goleiro era nanico ou que a bola fora chutada muito alta...

Corria-se ao sabor do vento, pouco importando o placar, o time rival, vencer ou perder... Apenas se jogava pela alegria; por testemunhas, as nuvens no céu, os postes do quarteirão, o padeiro da esquina, bem-te-vis da mangueira no fundo de quintal e as próprias crianças, rostos corados, pés descalços e uma inocência de fazer inveja a arcanjos e querubins.

Vem a adolescência. Muda a paisagem e a mentalidade. O campo, agora, é a quadra no clube esportivo ou o piso gramado de alguma agremiação. O gol já existe; já existe a rivalidade: joga-se para ganhar, perder nem pensar. Vitalidade de ferro. Corre-se uma, duas, três horas seguidas, sempre querendo mais. Às vezes há uma marcação de tempo (10 minutos para cada lado; se empatar vai a pênalti), mas só quando surgem mais de dois times para jogar. Na maioria das vezes é na base do “cinco vira, dez acaba!”, ou seja, cinco gols (ou golos?), dez gols. Pode ser que todos eles sejam marcados em algo perto de meia hora, quarenta minutos. Mas pode durar uma tarde inteira, o que vale a pena. À noite, nenhum cansaço; no dia seguinte, nem uma dor física, apenas uma vontade danada de jogar outra vez.

De tanto ouvir rádio, colecionar figurinhas, jogar botão e, mais tarde, ver televisão, vai-se decorando esta ou aquela jogada, que se repete grotescamente na hora do jogo.

E vira-se adulto. Campo fechado, grupo fechado. Já não se corre desenfreadamente atrás da bola, mas estrategicamente atrás de resultados. Jogadas são ensaiadas, alguns passes são combinados apenas por olhares dissimulados e gestos disfarçados para que o adversário não consiga entender nada. Mas mesmo assim, ainda se corre muito e joga-se pelo prazer de jogar.

É quando se dá a coisa!

Depois dos 28, 30 anos, o serviço profissional pega pesado. Fica-se, aí, por um bom tempo sem jogar futebol. Dez, talvez vinte anos. E durante esse tempo todo, o indivíduo passa por tanta provação na vida, no serviço, no relacionamento com as pessoas que vai se tornando filósofo: para tudo deve haver uma explicação, um motivo, uma causa. E mais: com a idade chegando, a gordurinha inexorável vai tomando conta daqui e dali no corpo, principalmente na linha de cintura. Sobe-se uma escada e, lá no topo, chega-se arfando. Aí, vem um antigo companheiro e diz:

- Como é que é, vamos jogar um futebolzinho neste sábado?

Como num passe de mágica, parece que o convite mexe todo com o interior da gente. É como se convidassem a gente para virar criança, outra vez, para voltar à adolescência, ao glamour da idade adulta, não senil.

É quando se dá o desastre!

O indivíduo aceita jogar, sem saber dos riscos que vai correr quando estiver no campo ou na quadra.Vai para casa e a esposa já nota um sorrisinho diferente nos seus lábios. Pega um velho calção, os tênis ainda dão para uns chutes, uma camisa esportiva e sonha com o sábado, julgando-se apto (ou pato) para o jogo que se aproxima.

No dia, na hora do jogo, o reencontro, os abraços e a advertência que nunca falta: “Olha lá, hein, meu ! Faz vinte anos que não pego na bola!” E a resposta vem de imediato : “Ora, quem foi craque um dia, é craque para a eternidade!”

Começa o espetáculo.

O indivíduo tem na cabeça todas as jogadas, decoradas ao longo de sua vida. Sabe que se correr pela direita, em direção ao pau da bandeira de escanteio, o armador vai lhe passar a bola. Ele vai recebê-la, enfrentar o zagueiro, jingar o corpo para direita e avançar inesperadamente para a esquerda, deixando o beque tonto, estendido no chão. MAS ISTO É O QUE ESTÁ NA SUA CABEÇA! Realmente, ele dá alguns passos em direção ao pau da bandeira, esperando a bola, mas quando ele consegue chegar lá, a bola já passou faz muito tempo e o zagueiro já está com ela, quase marcando gol contra a gente.

“Mas que diabos!”, pensa, “não era para dar certo? “

Era, mas o corpo já não deixa. Apenas a mente funciona. E assim vai o jogo inteiro, sempre se chegando atrasado às jogadas, ou seja, não se chegando nunca. Fica-se como um palhaço veterano olhando o trapezista fazendo malabarismo e peripécias lá no alto. Olha-se para cá, para lá e nada de encostar o pé na bola...

Mas o pior está por vir: começa a “interpretar” emocional e racionalmente as jogadas. Daí à análise do que está acontecendo é um pulinho de nada.

Vai-se indo pela direita, o armador pelo centro. O indivíduo está sozinho e o armador não passa a bola para ele. “Por que ele não passou a bola para mim? Será que ele não vai com minha cara? Por que este zagueiro não me marca direito? Será dó, piedade? Por que ninguém me passa a bola? Talvez tenham me chamado apenas por compaixão, ou será alguma gozação? Poxa, me transformaram num jogador café-com-leite! Vou pedir para parar e beber um pouco de água ... Água, água, ar, preciso de ar, muito, muito ar !!! Quem sabe um balão de oxigênio... Uma ambulância!”

Termina o sofrimento. Os outros, até parece não ter havido nada tudo normal “Pô, legal você estar aqui, até a próxima!”

Próxima? Que próxima?

À noite, após o banho quente, os músculos doem. Dorflex para as dores musculares, e Lorax com Rivotril para as dores da alma, da decepção, da consciência do peso da idade. No dia seguinte os músculos negam a se mexer. Mesmo assim consegue levantar-se e anda como um espantalho.

Futebol depois dos 50, principalmente para quem ficou mais de 20 sem jogar, só na telinha da TV e filosofando, como sempre: “Por que aquele idiota não passou a bola para mim? Que é que ele tem contra mim?”

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