Ceias

Por: Vanessa Maranha

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O bolo alto, assado por Meire, coberto por glacê branco e rendilhado por fitas de coco, cavacos pacientemente retirados por Antonio na sua oficina de carpinteiro; esses dois que então se casavam sem luxos de confeitaria. O recheio era de creme assoberbado e pêssego, fruta fina.

Ela própria recheara a massa esponjosa e ele cuidara de tornar o coco matéria para adorno. Prenúncio de uma vida a ser buscada por aquelas quatro mãos fortes e já cheias de calos.

A sidra espumante e açucarada selaria a despedida do casal que humildemente, malas nas mãos, ombros recurvos, rumava para a meia-água onde se inauguraria em família.

Arranjaram as pouquíssimas coisas nos cômodos limpos da casinha e puxaram cobertura para a varanda que Meire logo se encarregou de florir para colaborar no orçamento como manicure. Sua rotina passou a ser a das cutículas crescidas e ressequidas de madames quatrocentonas, clientes de sua mãe falecida; outras, emergentes e aquelas que eram apenas deslumbradas aspirantes a algum reinado.

Se havia um prazer que Meire aprendera a retirar de suas horas de trabalho, a coluna vergada, oh, sim, eram as conversas. Navegava com gosto pelas narrativas das viagens, festas, pelos amores, pelos sonhos de suas clientes.

Sorridente e interessada, ela ouvia tudo em esforço de entendimento perguntando sem pudor o detalhe daquilo que não alcançava mentalmente. Devorava com deleite o que viesse, em especial as histórias das viagens e festas. Nesse quesito, interessavam-lhe sobretudo as minudências das comidas servidas nos banquetes ou restaurantes mundo afora.

Foi na sua cadeira de manicure e pedicure, mirando pés rachados, joanetes e unhas encravadas que conheceu o significado das endívias, da quinua, da redução do grelhado ao molho rotî. Soube ali o que era um boleador, um vitelo, um ragu, os dips, sorbets, bavaroises, tarte tatin, emulsificação.

Não que essas mulheres, suas clientes, cozinhassem. Mas sabiam comer, ah, se sabiam.

Assim, fugia de seus pesadelos cotidianos povoados de gritos tentando provar ao menos em imaginação as cores e fragrâncias de tais prazeres. Se não podia voar para a Grécia, imagine, contentava-se, reservando para isso parte de seus ganhos, em reproduzir a moussaka detalhadamente descrita por dona Sofia, a mulher do deputado federal, sua cliente.

Em sua cozinha modesta ia picando picadinho. Fatiando fino, salgando, marinando, gratinando até chegar naquilo que julgava ser a mais próxima materialização do que lhe fora narrado. Com que desconhecida alegria servia-se a si mesma, cheia de pompa e circunstância, num gozo de incorporação, sensorialmente levada para outras partes desse mundo que não sabia, até então, tão vasto.

Frequentava, imaginariamente, salões sofisticados, recriando sua austeridade nos acepipes, nas delicadezas de joalheiro que com o talento recém-descoberto lograra. Complexos consomês; elaboradas saladas; cortes exatos nas carnes. De cada invenção, guardava uma fatia, um naco com o qual presenteava a cliente narradora, num aceno de agradecimento e, sobretudo, para a confirmação ou não de sua apreensão. Antonio escutava interessado cada uma das descobertas da mulher, mas, depois de um tempo, se cansava do muito que ela falava dizendo pouco: alho. Alho é fundamental em toda carne. Só não pode sobrar. E tanto mais dele se aproveitará se a carne for demolhada de véspera no que minhas clientes chamam de vinha d’alho. O mel doura. O limão evita o escurecimento da fruta, mas endurece o camarão. Ia então aperfeiçoando os modos, conforme os retornos que obtinha, até chegar à literalidade da guloseima e, com ela, claro, começar a criar fama e receber as primeiras encomendas dessas clientes que, sim, comiam, devoravam, mas relegavam muda e delicadamente a cozinha ao domínio do braçal. O que, claro, não excluía preguiça das grossas, a lassidão, a inércia, como quem, vida suspensa diz: ‘minhas mãos, essas, eu não boto na massa’. Exatamente o contrário dizia Meire a Antonio: ‘porque há, sim, que se enfiar a mão na cumbuca e segurar com vigor o pernil gordo, injetando-lhe os temperos sem dó nem piedade. Há que se esfaquear o frango e sangrá-lo até a palidez total, se necessário, quando se deseja o sabor da cabidela. Cozinha pede força e obstinação, pede também a fineza na modulação dos sentidos para alquimias que ofereçam arte aos apetites’. Se pintava unhas, se lixava garras, se glaçava as pouquíssimas amêndoas que o seu mirrado dinheiro podia comprar, se se apertava para no mercadão alcançar a exata mostarda de Dijon - outra não servia - é porque tinha ânsia, Meire, que nesse caminho, aos poucos constituiu bufê, peça por peça e, banqueteira, então, conduziu festas memoráveis. Comprou casa própria, carro. Mas, na garagem de sua casa, quis um caramanchão que oferecesse sombra e frescor à mesinha de manicure com seus esmaltes, acetonas, algodão e alicates. As terças e quartas-feiras eram reservadas às fieis clientes, às madames de unhas duras -atenta, curvada aos pés dessas mulheres, Meire as escutava, abastecendo-se das minudências de um ou outro jeito de existir. Naqueles momentos, as suas ceias.

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