A Lâmina de Ouro

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Os olhos do homem passeiam lentamente. Param, fazem esforço, mas não localizam as letras. Sabe que elas estão lá, em filas indianas, em relevo no frontispício: A BARONESA DA FRANCA. Tem consciência, também, de que a edificação foi o segundo sobrado construído na cidade, na Praça da Aclamação. O proprietário, o Barão da Franca, morreu, a baronesa logo lhe seguiu os passos, a praça virou Praça Barão, mas o sobrado continua ali, a inscrição continua ali.

O homem tem vontade de se levantar, de se aproximar do prédio, de confirmar a permanência das letras, da frase.

- Bom dia, Sô Chico.

A voz apaga lembranças e intenção, e provoca susto.

- Hein ? O quê? O quê?

- Sou eu, Sô Chico, o Tãozinho.

- Hein? Quem?

- Desculpe. O senhor estava distraído... Sou o Tãozinho.

- Ah, é o doutor Sebastião.

- Que doutor que nada, Sô Chico. Sou o seu amigo Tãozinho.

-É verdade... Eu estava distraído... Estava examinando o sobrado ali em frente.

- Ah, estava lembrando da Lâmina de Ouro, não é?

- É... é... depois ... depois foi a loja do senhor George Kairala.

- Houve época em que era uma das lojas mais importantes da cidade.

- Eu lembro dos programas de rádio...Tinha um que dava prêmios... O locutor avisava:

“não diga alô! Diga: A Lâmina de Ouro vale um tesouro”

mas a gente esquecia e falava alô, e perdia a chance de ganhar um disco.

- Foi a primeira loja que mostrou um aparelho de televisão na cidade. O George Kairala ligou o aparelho, e um povão ficou amontoado na porta da loja, apreciando a novidade.

As lembranças dos interlocutores se misturam, se atropelam, se completam. Por mais de quinze minutos, debruçam-se no balcão da loja cheia de clientes, compram rádio, eletrola, televisão, agulha e braço para o tocador de disco. Havia um mundo de miudezas para os aparelhos eletrônicos, cuja modernidade espantava a população francana.

- Lembra da quantidade de perfumes?^

- Vendiam material para os dentistas, vendiam canetas e lapiseiras Parker.

- Tinha tudo que a pessoa quisesse para dar de presente.

Comentam que o George Kairla e a esposa Hiva tiveram três filhos homens Reinaldo, Ricardo e Roberto, que nenhum deles quis permanecer no comércio, dois viraram médicos e outro virou engenheiro. Mesmo depois que ficou viúvo, o proprietário continuou com a loja e, mais tarde, casou-se novamente. Contraiu núpcias com funcionária da Lâmina de Ouro, a senhorita Shirley.

Tãozinho está empolgado, fala animadamente, mas, de repente, quase de forma brusca, o homem velho, a seu lado, interrompe a conversa, faz esforço, fica de pé e se despede.

- O senhor me desculpe, mas tenho que ir embora Eu moro longe, moro depois da linha do trem. Qual é mesmo a sua graça?

- Sebastião...Tãozinho... os amigos me chamam de Tãozinho...

- Chico Franco, seu criado. Até mais ver.

O velho se vai com seu terno branco, com sua gravata cinza, com seu indefectível chapéu branco, com sua bengala fazendo toc-toc nas pedras do calçadão. Sai da Praça Barão, desce a Rua General Teles. Em poucos minutos, some em meio ao povo que anda pra lá e pra cá, nas imediações do Terminal de Ônibus.

Tãozinho fica um tempão olhando o caminhar incerto de Chico Franco, depois caminha devagar. Deixa a antiga Praça da Aclamação, desce a Rua Marechal Deodoro. Vira à esquerda, na Rua Ouvidor Freire. Seus passos também são lentos, quase automáticos. Todo o espírito está lá na Lâmina de Ouro, no passado, nas mudanças que ocorreram, nos amigos que se foram, na vida que foi ontem e que sumiu parece que faz séculos.

Para diante de sua casa, da casa de sua mãe, da casa de seu pai.

Olha atentamente para as árvores, para a vegetação, para a construção à sua sombra, filosofa sem mover os lábios.

- Meu mundo ainda resta. Até quando?

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