Na terra do ET

Por: Mauro Ferreira

Dirigindo pelas curvas da recuperada BR-491 em Minas Gerais, bordejando o lago de Furnas na direção de Varginha, fiquei pensando nos caminhos que percorreram os W´Boys, o conjunto musical formado em Três Pontas por Milton Nascimento e Wagner Tiso nos anos 60, aquelas estradas todas ainda de terra e os bailes da vida em Alfenas e vizinhança. Coisas do destino, que levaram os dois talentos se tornarem músicos excepcionais, que já me fizeram sair da comodidade francana para assistir seus shows no Teatro Pedro II em Ribeirão Preto.

Enquanto pensava sobre a trajetória admirável daqueles dois meninos do Clube da Esquina (descrita magistralmente em “Os sonhos não envelhecem”, de Márcio Borges, que recomendo a leitura) e ouvia “Pra Lennon e MacCartney”, “Travessia”, “Maria, Maria”, meu destino se aproximava: a terra do ET, Varginha. Convidado a fazer a aula inaugural do novo curso de arquitetura da universidade local (UNIS), aproveitaria para rever amigos e visitar as obras do projeto que elaborei em conjunto com os arquitetos francanos Luiz Antônio Pereira e Juliano Bérgamo, do novo campus que estão construindo com recursos do governo federal.

Colocaram-me num hotel situado na praça central, o Fenícia, nome de navegantes e viajantes do Mediterrâneo, o que achei ótimo, pois prefiro ficar no centro para poder andar a pé, que é o único jeito de conhecer as cidades. Defronte o hotel, à noite, transparece a grande caixa d´água com formato de disco voador, ao lado de abrigos de ônibus também travestidos de discos. A iluminação colorida lhes dá um ar ainda mais fantasmagórico e estranho, a relembrar a hilária história do ET, que ganhou o país e lhe deu fama nacional.

Cumpridas minhas obrigações profissionais, fiquei livre pelo centro da cidade para caminhar a esmo na manhã fria e gostosa do dia seguinte. Chamou-me a atenção o pesadelo urbanístico que se avizinha: o sistema viário estreito e totalmente congestionado, a alta declividade das vias e a concentração de dezenas de edifícios altos em obras naquela região central. Ou seja, a situação vai se agravar muito, já que todos reclamam do congestionamento do centro. As praças são poucas e pequenas, estreitas. Tudo está construído. Uma via férrea desativada, de pequena largura, ainda resiste ao automóvel, andei por ela até chegar à belíssima estação da extinta Rede Mineira de Viação, parece projeto do Dubugras. Felizmente, ela está preservada, bem melhor que a nossa.

Algumas casas estão voltadas para dentro da antiga estrada de ferro, numa situação esquisitíssima, pois não há como entrar veículos, só a pé. Como permitiram isso? Não obtive resposta. O Theatro Capitólio, pequena jóia da arquitetura local, está totalmente restaurado, causando inveja em quem viu o Hotel Francano ser demolido. Em compensação, o cinema local, do período modernista, está fechado e a disputa entre preservacionistas e proprietários, dizem, vai longe. O ET terá muito trabalho pela frente.

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