Olhar e ver

Por: Maria Luiza Salomão

Uma imensa nuvem cinzenta correndo apressada no céu azul foi apagando as cores das duas montanhas, nos seus tons verde-cinza e marrom. Como se um pintor passasse uma fina camada de tinta escura e tornasse tudo mais escuro, mantendo os contornos e alterando a cor.

Foi um instante só. Agora a nuvem passou, pelo menos não mais a vejo no enquadre da janela onde me postei. O céu azul mantém a moldura para as duas montanhas, sempre tão apegadinhas uma à outra. Agora tudo voltou ao estado anterior da passagem da Grande Nuvem Cinzenta. As escarpas exibem o mesmo desenho habitual, esculpido pelas águas dos tempos, em veios verticais, paredes claras em tons de bege claro, depois cinza-esverdeados, e cinza-grafite aqui e ali.

Sombras transformaram as tonalidades, fugazmente. Era grande a nuvem, mas passou. Outras pequeninas vão surgindo, em flocos. E são retoques sombrios.

Muitas nuvens, brancas, azuladas, levemente cinzas, flocos de algodão em formas consistentes e esfiapadas, passam correndo pelo céu. Não sei aonde vão, correndo assim, como se convocadas por arautos invisíveis, inaudíveis.

As montanhas ficam imóveis, sentindo a passagem das nuvens apressadas, descolorindo e colorindo, em parte e em sequência, seus grandes dorsos.

O filósofo Platão, há séculos e séculos, criou uma bela metáfora. A visão de sombras projetadas na parede da Caverna que parecem ser a visão do Real, mas enganam os humanos. É preciso sair da Caverna para ver, o Real está fora da Caverna.

Abandonar a janela, continuar querendo ver, saber a moldura da janela, dos ilusórios sentidos e suas cavernosas prisões ao olhar (e ver).

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras