Oração pela vida

Por: Everton de Paula

Fala-se muito, hoje, que estamos vivendo um hipotético começo de fim do mundo. Mas não é o povo que fala, e sim a mídia televisiva e impressa. Antes, o fim do mundo era assunto tratado com tanto respeito e temor como quando alguém quisesse se referir a um câncer. Aliás, antigamente não se dizia “câncer”; havia, para tanto, um eufemismo que suavizava a brutalidade dessa doença corrosiva: dizia-se “aquela doença”, ou ainda “o mal incurável”...

Mas fim do mundo era fim do mundo mesmo. E como se o imaginava? Ora, eram tantas as formas quanto pudesse criar a fértil imaginação humana: viria um corpo estranho do espaço, quase do tamanho da Terra, e se espatifaria contra ela, destruindo-a e a todos nós. Outros diziam da invasão de marcianos. Alguns mais cautelosos (e muito mais sensatos) referiam-se à morte individual como o fim do mundo para o de cujus: José morreu? Então o fim do mundo chegou para ele.

Recorre-se à leitura bíblica e saímos dali apavorados com as previsões apocalípticas de João. Haveria um dilúvio? O mundo acabaria em fogo? Talvez em cogumelos atômicos aqui e ali.

E falam, e falam, e falam... E o mundo não acaba. Está aí, íntegro, com todas suas dificuldades e belezas, horrores e espetáculos, momentos de guerra e paz...

É certo que nos calamos quando vemos pela TV, que insiste tanto, as imagens dos gelos polares se derretendo, o aumento gradual da temperatura do planeta, espécies animais se extinguindo, o homem poluindo o ar... Mas, o mais catastrófico: o homem poluindo a si mesmo, desacreditando na ética, na moralidade, nos valores que lhe favorecem o bem-estar.

Penso numa espécie de começo de reversão. É preciso reverter o quadro. É preciso optar pela vida. Preservar a pureza dos ares, a limpeza e sustentabilidade das águas, os pássaros, todas as espécies da fauna e flora... É preciso preservar os valores mais nobres da civilização humana o amor, a ética, a moral, a educação, a elegância, a fraternidade, a igualdade social, o bem-estar do indivíduo e do coletivo...

Cada vez que uma espécie desaparece, rompe-se um fiozinho na intrincada teia que sustenta o universo. Quando muitos desses fios estiverem partidos, toda a teia se desmantelará, e, quando isso acontecer, não teremos como escapar à catástrofe. Este é, para mim, o fim do mundo: a não opção pela vida!

Não basta apenas lutar pela fraternidade humana. Precisamos lutar pela fraternidade dos seres vivos. Uma justiça que não abranja todas as formas da vida, desde a larva até às baleias, não é justiça; não passa de um conchavo entre os membros de uma elite privilegiada.

Os povos antigos, que reverenciavam animais, a água, o vento e as árvores, estavam mais perto da fraternidade dos seres vivos que nós. Se não regressarmos rapidamente a um estado de harmonia com a natureza e de respeito por tudo que é vivo, humano ou não, é bem provável que pereçamos todos.

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