Abandono

Por: Vanessa Maranha

142896

Quando a vizinha chegou à casa da dona Juliana atraída pelo burburinho que umas tantas pessoas promoviam diante do seu portão enferrujado, pediu, corajosa, passagem.

Repórteres de jornal ali haviam estado há menos de três semanas noticiando invasão por ladrão que, inclusive, tentara o estupro de dona Juliana, nonagenária, o corpo miúdo todo enrugado, feições desfiguradas pelo tempo.

O vendedor de gás a salvara da violação prestes a acontecer no momento mesmo que lhe batia no portão despencando de tão alaranjado. Há uns poucos dias a mulher velha voltara ao noticiário. Dessa vez, por denúncia anônima: é que no interior daquela casa amontoava-se quantidade absurda de lixo numa fedentina que da esquina se fazia sentir.

Quase catatônica ela seguiu o repórter da TV pelos cada vez mais estreitos corredores da casa e com tudo concordou, os olhos assustados, até a multa e advertência da Vigilância Sanitária recebeu calada, recurva, num silêncio que não vinha de humildade e sim do susto, acuada na bolha de não compreender ali nada do que ali se passava. Aquela gente falando, falando e nenhum som lhe penetrando os ouvidos.

Hoje foi diferente. O falatório indignado parecia vir do mau cheiro que persistia. A indignação da rua em defesa da própria pele, o temor de doenças e das ratazanas que proliferavam já invadindo casas alheias.

Do portão de taramela frouxa até a sala, o caminho foi tortuoso. Sacos de lixo apodrecido se sobrepondo por todo canto, grandes, pequenos, diariamente guardados dentro da casa por Eurípedes, o filho louco que andejava por todo o bairro recolhendo porcarias para a acumulação noturna, ali ele só dormia.

Sob os pés de quem transpôs aquele espaço, grossa camada de poeira e sebo. Famílias inteiras de ratos, uma ninhada aqui, outra ali em pequenos alvoroços. Na sala, transfigurada em lixão, deitada no sofá que não se distinguia mais em cor, era imenso borrão amarronzado de sujeira estava ela, dona Juliana, o vestido cheio manchas antigas, a morrinha no ar, esse vestido levantado à altura dos seios murchos, o sexo mirrado e grisalho à mostra e um fio de sangue deslizando da parte anterior das pernas. Suas unhas, de tão grandes e grossas, recurvavam-se para dentro, ofendendo os dedos dos pés e das mãos.

Quando viu a vizinha ladeada por outras duas mulheres curiosas, olhos semicerrados como os de um bebê, aquela velha entreabriu os lábios lívidos em débil menção com a mão, cujos dedos pareciam galhos retorcidos, em direção à boca, expressando a necessidade de colocar algo para dentro, comida, água, qualquer coisa.

As linhas cadavéricas daquele rosto, a astenia daquele corpo magro recoberto de pele fina e craquelada estampavam desidratação, abandono, fome, morte. A vizinha correu à geladeira. Dentro dela, comida podre e moscas resistentes à baixa temperatura; uma tigela de arroz azedo em que larvas amareladas se movimentavam freneticamente. Inteira, vermelha, limpa, brilhante, uma maçã resistia no canto da geladeira imunda.

A pia visguenta, em petição de miséria, tinha rodelas de bolor na rala água encobrindo louça que devia estar ali há semanas, meses. A mulher lavou rapidamente uma colher para raspar a maçã e lhe oferecer a papa na boca desdentada. Com mansa voragem, dona Juliana engoliu a fruta raspada. O seu corpo de passarinho jazendo inerte sobre aquele sofá.

Ao cabo das colheradas, a vizinha sentiu gelar sobre si olhos de rancor; nítido na velha o desejo de agredir quem a alimentava. Quando as três mulheres fizeram menção de resgatá-la daquele estofado para levá-la ao banho, numa fúria que trazia de volta à vida àquele corpo, ela chutou o quadril da vizinha, fazendo-o sangrar com a dureza cortante de suas unhas deformadas, imensas, recurvas, garras de tamanduá.

Num empuxo decidido, em contenção, a nonagenária foi erguida do túmulo de veludo puído e emporcalhado em que se estendia, ela lutando, bicho emparedado, contra as mulheres.

O banheiro era impossível. Sobre a cuba da pia de louça emplastrada de limo, uma galinha morta, as penas soltas da pele, a purulência de organismo decomposto, sangre negro ao redor e as larvas, odiosas, se esbanjando. Indescritível aquele banheiro com a galinha, o malcheiro infernal, a latrina entupida, penico cheio de matéria que já parecia estar ali fossilizada.

Sem outro jeito, as mulheres decidiram então banhar a mulher no quintal. A mãe de outros três filhos, a avó de cinco netos crescidos, todos debandados por aí. Só o filho amalucado, assustado, à espreita. O breve percurso do interior da casa até o quintal fez sangrar os pés da velha, as unhas lhe rasgando as solas dos pés. Cortar-lhe tais garras exigiu novo desdobramento do pequeno esquadrão que as mulheres formavam. Reviradas bruscas em torno de si como um jacaré ameaçado, pontapés para todo lado, mordidas, até, enfim, conseguirem aparar as unhas como cascos e pousá-la de volta no sofá, onde, minutos depois, expirou.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras