O canto da chuva

Por: Hélio França

A chuva que há de vir está próxima, apesar da poeira que paira no ar e da falta de nuvens dizerem o contrário. Acredito mais nos sabiás. Nos últimos dias eles têm gorjeado bastante nos finais de tarde, e como diria o bom mineiro, isto é sinal de chuva !

A boa e dadivosa água que vem para aplacar a sede do solo sedento, tão bem-vinda quanto o cheiro do chão molhado, que inunda de esperanças nossa alma. E nos remete às manhãs de nossas vidas, chuvosas, vivenciadas num passado onde a palavra família possuía um significado mais nobre.

Éramos crianças ( que bom saber que o fomos ) e ouvíamos dos pais que fazia mal brincar na chuva fria. Obedecíamos às vezes, mas que delícia correr lá fora e depois entrar com as roupas molhadas, para em seguida tomar um banho quente que recompunha nossas energias e as condições naturais da bunda, após umas palmadas merecidas pela desobediência de brincar no temporal.

Criança é assim mesmo, não sabe o que faz mal à saúde, e os pais, que já foram crianças, hoje estão mais sábios e cada vez menos crianças, literalmente. Há uma famosa música do norte cuja letra diz : “ A vida aqui só é ruim/ quando não chove no chão/ mas se chover dá de tudo,/fartura tem de montão/ Tomara que chova logo/ Tomara meu Deus tomara/ Só deixo o meu Cariri/ no último pau-de-arara.” É o apego do nordestino à sua terra natal, onde ele tem raízes fincadas na tradição, na simplicidade e na fé em sua terra, carente de água mas que haverá de receber, mais dia menos dia, o choro copioso das nuvens capaz de fazer o chão brotar em verde, em grãos, o sustento da vida !

Em cada rincão desta terra abençoada existe uma característica, ou seja, nossa geografia possui muitas facetas e nuances. Mais precisamente em nossa região, o sudeste brasileiro sempre foi pródigo quanto ao ciclo hidrológico. No entanto, nota-se que está havendo uma transformação nas estações climáticas. Nos últimos anos o período da seca tem-se mostrado significativamente mais rigoroso, com períodos de estiagem prolongada.

Temos visto nascentes , que nunca secaram, minguando. Lavouras de café que sempre foram viçosas estão desidratadas, definhando. Os pastos ressecados; o capim, palha amarela que o gado come para não morrer de fome. Quem reside ou mesmo tem propriedade no campo, observa melhor que aqueles que vivem exclusivamente nos grandes centros urbanos.

Mas a boa e velha chuva está chegando para dar continuidade à vida.

Enquanto tarda, vale o velho mito de pôr um ovo sobre o muro como faziam nossos avós, ou rezar para o santo preferido. Rezas e superstições à parte, sou mais o canto dos sabiás. Tenho observado e ouvido desde menino. Verdade ou não, ouví-los chamando a chuva tem me conservado menino até hoje. Não troco por nada um sabiá cantando à tarde, nem troco por nada a abençoada água que despenca dias depois, matando a sede do chão e da alma. Ora, direis, ouvir sabiás !

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