Antes da informática

Por: Mauro Ferreira

Meu avô Arlindo Ferreira, funcionário da prefeitura de Franca, sozinho, fazia manualmente todos os lançamentos das contas de água e esgoto da cidade, em torno de sete mil naqueles tempos, anos 1940. A cidade não tinha hidrômetros, era um lançamento único para o ano todo. Hoje, quem vê os funcionários da Sabesp com suas máquinas lendo o hidrômetro e emitindo instantaneamente as contas, sequer pode imaginar como era 50, 60 anos atrás.

Nos anos 60, um colega que estudou ao mesmo tempo que eu o ginásio e científico tornou-se personagem lendário por conta de uma história mirabolante contada em verso e prosa nos corredores do velho IETC, pelo inusitado e pela velocidade que lhe rendeu o apelido de Emil Zatopek, o grande corredor olímpico tcheco.

Ele tinha um parente que era comerciante na praça, provavelmente um armazém de secos e molhados. Naquele tempo, o fisco estadual ainda estava na idade da pedra, não havia equipamentos informatizados, fotocópia, controles rígidos. As únicas máquinas disponíveis eram de escrever e calculadoras manuais. Cópia, só em papel carbono. O órgão público, se não me engano se chamava Coletoria Estadual, ficava no segundo andar do antigo prédio da Caixa Estadual, aquela que tem uns imponentes pilares gregos falsos na fachada, bem no centro da cidade.

Por algum motivo, o comerciante foi autuado pela fiscalização. Montaram um processo administrativo, que era todo manual: o auto de infração, os documentos, os cálculos da multa, tudo. O comerciante não concordou com a multa e pediu vistas no processo. Numa segunda-feira à tarde, ele subiu a longa escadaria de mármore da Coletoria para ver o tal processo. O funcionário, solícito, entregou-lhe o material. Ele pediu para instalar-se numa mesa para poder ler os autos com calma, de preferência ao lado da janela, onde havia mais luz.

Depois de acomodado, ele pegou o processo, levantou-se e olhou pela janela. Lá embaixo, na travessa, a antiga rua da Maçonaria, estava o menino que estudava conosco, encostado na parede e olhando assustado para os lados, mas não havia ninguém, a cidade era um paradeiro só. Ele calmamente jogou o processo inteiro pela janela, o menino apanhou aquela maçaroca de papéis e desapareceu em desabalada carreira para os lados da AEC. Sumiu.

O funcionário, estupefato, sem acreditar no que viu, começou a gritar, chamando os colegas, depois chamaram o delegado para dar queixa do acontecido. O fato é que o processo administrativo desapareceu para sempre. Não havia cópias, tudo teria que ser refeito, levaria tempo e poderia tomar rumo diferente. Nunca soube o que aconteceu depois, se houve algum desdobramento do caso, mas o fato é que o Zatopek francano tornou-se um cidadão de bem, querido e respeitado por todos e, certamente, até hoje deve rir do inusitado acontecimento perdido nas brumas do passado de uma cidade pequena e divertida que só resiste na memória de quem viveu aqueles tempos.

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