O artista e os lustres

Por: Sônia Machiavelli

Para Renzo Covas

“E quando vi, estava tudo tomado pelo fogo”, ele me falou sábado passado, enquanto suas mãos reuniam os imensos antúrios vermelhos e os colocavam nos vasos da mesma cor. “Os bombeiros chegaram logo, noticiaram, mas para minha aflição demoraram um século”, continuou, avaliando ao mesmo tempo o efeito que o arranjo de flores causava sobre a mesa coberta por linho cru. “ Só horas depois, ao amanhecer, me dei conta do tamanho do estrago”, resumiu com tom de tristeza pelo que havia perdido .

Ele se referia ao incêndio que se alastrara defronte de sua propriedade, em condomínio de chácaras. O fato acontecera há poucos dias. Era trazido à tona em nossa conversa porque eu queria saber de onde vinham os lustres que sua equipe acabara de pendurar no teto do Castelinho, na noite do Top Franca. Eram objetos que exerciam sobre meu espírito um poder hipnotizante, graças à extrema e estranha beleza deles. Havia unidade entre as formas, apesar das diferenças entre elas. À semelhança de seres vivos, ficava evidente que pertenciam a uma matriz comum, mas cada um se destacava pela singularidade. Variavam no tamanho, no número de hastes, nas formas sinuosas. De onde teriam vindo, quem os havia buscado, eu perguntava, já adivinhando que não se tratava de produção industrial. Para me responder, ele necessitara fazer o preâmbulo das chamas devastadoras. Sem isso não poderia me dizer a origem dos lustres. Continuou.

“Aí, olhando o que até poucas horas antes era verde e agora tinha virado carvão, me chamaram a atenção os pequenos arbustos que se mantinham na vertical. Naquele negrume todo, eles ainda exibiam a beleza da forma, como muitos braços erguidos ao céu pedindo clemência. Seguindo um impulso, quebrei-os e os levei para o meu barracão de trabalho. Foi ali, virando os galhos negros para baixo e segurando-os pelos caules, que percebi alguma possibilidade de transformação. A cor era triste, falou meu filho, mas quem sabe se os pintasse? Usei o vermelho brilhante. Não ficaram lindos ?”

Sim, afirmei muito surpresa, tinham ficado lindos, pois além da tinta, dezenas de cristais de diferentes tamanhos os adornavam. A luz que incidia sobre eles reverberava e criava efeito misterioso, romântico, sofisticado. Por muito tempo fiquei parada no meio do salão. Deixava a alma alçar àquela claridade e com ela bailar. Mirava o artista a concretizar seu sonho, honrada em estar na presença do criador em processo de criação. Observando todos aqueles lustres acesos e a noite que sobrevinha, me ocorreu que poderiam ser metáforas para nossas existências, muitas vezes também submetidas a temperaturas no limite do suportável e do letal. Assim como o artista, que conseguira gestar beleza a partir da dor, bem poderíamos, enquanto meros mortais , aprender esta outra arte, irrecusavelmente importante, que é viver. Pois se nada pode sair do artista que não esteja no homem, não teríamos todos nossas reservas criativas capazes de transformar em novas realidades elementos feridos de morte, distorcidos em suas pertinências e até sob risco de fossilização?

A resposta me caiu afirmativa, com ressalvas. Nenhuma transformação se dá por milagre, nem é obra do acaso, refleti. Resulta de aprendizagem ou de algum insight revelador: mobilizar forças pede disposição, exige trabalho e demanda cuidado. Mas vale muito à pena pelo que enseja de desvelamento, crescimento, lucidez, reconfiguração e ampliação de olhares sobre isso a que chamamos Vida, sempre muito maior do que imaginamos.

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