Corpo e alma

Por: Eny Miranda

Habitam-me sóis nascentes e poentes,
Duendes incógnitos, reticentes.
Não consigo decifrar seus signos:
Inteligíveis (uns), às vezes;
Obscuros (todos), quase sempre.
Vivemos em estado de dupla e reflexiva análise,
De mútua e contínua observação.

Estranho (e até injusto) é que
Não os conheço como me conhecem;
Contudo nos examinamos sempre,
Trivial e infatigavelmente,
Como se eu os pudesse decifrar um dia,
Ou eles, por um único instante,
Um dia me desconhecessem.

De uma coisa eu sei:
Alguns são aéreos, etéreos, quase anjos
- sílfides suavíssimas,
Sínteses de Amor.
Acariciam-me gostos, gestos, inatas notas...

Essência.
Outros, irônicos,
Sorriem enviesado
Das concordâncias, dissonâncias, ressonâncias...
Do túrbido esmorecimento que, por vezes,
Invade meus pesares, pensares e sentires.
Os cruéis têm por função enfatizar tristezas,
Avultar desejos, fixar desgostos,
Armazenar ausências, ampliar saudades...

Todos igualmente abstratos,
Precedentes às moléculas e aos átomos,
Indiscutivelmente presentes, e sibilinos,
Luzindo o branco a seus matizes,
Ressoando a vida a seus ecos,
Conviverão comigo
- inquieta comunhão,
enigmática e reflexiva simbiose -
Enquanto existirem os conflitantes
Anseios da alma e da carne.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras