Os otimistas de plantão

Por: Everton de Paula

Nada contra o otimismo. Até acho que seja uma boa intenção aquela de revelar a alguém desconfiado que sua desconfiança talvez não tenha, no fundo, razão de ser.

Eu me lembro com muita clareza da função sociopolítica, vazada numa linguagem sarcástica, irônica, do semanário O Pasquim, na época do governo dos militares. Seus articulistas Jaguar, Millôr Fernandes, Tarso de Castro (o editor), mais tarde o Ziraldo, Claudius, Fortuna, fizeram deste “jornaleco” o mais importante semanário alternativo do período da ditadura militar, devido ao seu conteúdo/forma combativo, polêmico e inovador. Isto entre 1969 e 1991.

Ora, quem é combativo não pode ser otimista diante daquilo que combate. Acho que isto é claro, não é mesmo? Pois O Pasquim combatia a ditadura repetitivamente, ao ponto de algumas alas da sociedade brasileira de extrema direita começarem a se incomodar com aquelas cacetadas inteligentes. E era essa extrema direita que enxergava nos militares talvez um bom único caminho para se “endireitar” o país, mesmo que fosse às custas de prisões inomináveis e torturas bárbaras... Sem contar os desaparecimentos até hoje inexplicáveis. E era exatamente essa extrema direita que via com óculos cor-de-rosa os procedimentos institucionalizados via porretada, e conceitos de cidadania e civismo enfiados goela abaixo como algo positivo, no sentido mais cretino de borrar aquele cenário com as cores do otimismo.

Surgiu, então, o otimismo mais idiota e ingênuo que se podia imaginar. Quem não se lembra da frase “BRASIL: AME-O OU DEIXE-O!” ? O Pasquim não deixou por menos: “O último a sair fecha a porta do aeroporto!” Ou algo parecido.

Foi com esse espírito que os otimistas talvez tivessem aplaudido o desaparecimento da Histórica Crítica, Sociologia, Filosofia, Antropologia Cultural das grades disciplinares tanto no ensino superior quanto no antigo colegial. Em seus lugares viria a Educação Moral e Cívica que ensinava uma pseudo-autonomia nacional, as duzentas léguas marítimas (“esse mar é meu, leve esse barco pra lá desse mar...”) algo muito perto de “nosso céu tem mais estrelas”, “nossas matas são mais verdes” e talvez “nossos mares têm mais peixes”...

E os otimistas ali, de plantão, batendo palminhas e dizendo: “É isso mesmo, é isso mesmo, viva o Brasil!” Esses mesmos otimistas que passaram a criticar todos aqueles que se punham contrários ao sistema. Usaram (os otimistas) uma frase emblemática: “Todo pessimista é um chato!”.

Interessante esta frase! Ter lucidez sobre um assunto ou fato, criticá-lo sob a luz da razão e insistir nas mudanças necessárias para sua otimização é ser chato. O Pasquim, na época, outra vez não deixou por menos... E respondeu na lata: “E todo otimista é um pato!” Dá para entender o sentido, não é verdade?

Entendo o otimismo como uma corrente filosófica equivocada. Ser otimista, muitas vezes, é esperar pelo melhor sem agir para que esse melhor possa talvez vir a se tornar realidade.

Você chega e diz:

- Tenho uma tarefa difícil, dura pela frente. Não sei se consigo. Talvez com algumas sugestões ou mesmo discussões a respeito...

Aí vem o otimista e diz:

- Que é isso? Você não precisa de mais nada! Você é capaz e, no fim, tudo dará certo!

Não era bem o que se queria ouvir. Aí o otimista reclama: “Mas você quer que eu também enxergue as coisas como você? Tudo negro? Está bem: então o que você tem pela frente é mesmo algo insuportável. Vamos sofrer juntos...”

Santo Papa, é tão difícil de entender assim? Não estou sendo pessimista, mas também não quero as cores festivas e ilusórias do otimismo: apenas quero discutir o fato, até à exaustão; encontrar possíveis soluções... Mas como isso é trabalhoso para a mente, entendo que o otimista, querendo evitar o exercício intelectual, simplifique as coisas dizendo algo parecido a: “Espere chegar o momento... Não sofra antes... Você é capaz... No final, tudo dará certo...”

Insuportável!

Não dá para ficar explicando que não se é pessimista, nem realista, nem qualquer ista que se queira denominar. O que se quer, em essência, é debruçar sobre qualquer problema ou fato apresentado e discuti-lo sob a luz da razão e da sensatez.

Mas não, o otimista é tenaz, insistente. Vejam uma tentativa de esquema;


OTIMISTA

É otimista
Religioso
Insistente
Sentimento
Às vezes ingênuo
Acomodado, conformista
Intuitivo


NÃO OTIMISTA

Não é necessariamente pessimista
Agnóstico
Flexível
Razão
Dialético, desconfiado
Incomodado, debatedor
Dedutivo

Se você, leitor, não concordar com essas características, responda: por qual coluna a História tem demonstrado a gênese, evolução e permanência do progresso das civilizações?

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