‘Só quero ser perfeita’

Por: Maria Luiza Salomão

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Natalie Portman, como Nina, ganhou o Oscar de Melhor Atriz no filme Cisne Negro. Trabalhou duro dez meses para viver a bailarina no “Lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky, coreografado em várias versões, no mundo todo. A temática é clássica e contemporânea. O culto à Beleza cria comportamentos obsessivos que podem levar até à virtuose, no caso do artista, mas também à loucura.

A Psicanálise não se ocupa em rotular pacientes. Nenhum ser humano cabe em um rótulo. Aspectos saudáveis e doentios se mesclam no psiquismo. Somos Cisnes Brancos e Cisnes Negros, em constante mixagem nas cores de Penas, cinzentas em várias gradações.

Este filme nos conduz a lugares sombrios, nos extremos limites da mente, entre a Perversidade e a Inocência, ou se quiserem, o Bem & o Mal. A trama remete ao famoso balé “O lago dos Cisnes”.

Em breve resumo, o tema da história (encomendada ao compositor russo) é sobre um mito nórdico, o da transformação de mulheres em cisnes. Odette, por força de um feiticeiro malvado, Rothbart, se transforma em Cisne Branco, símbolo da pureza inatingível. O balé se inicia com um sonho premonitório de Siegfried, o príncipe. Odette é carregada pelo feiticeiro.

Siegfried, o romântico príncipe, está à procura de um ideal de pureza, a ele inacessível. Vai até o lugar dos sonhos, o Lago, onde conhece Odette. Mas Siegfried se envolve com Odile, o Cisne Negro, a sedutora e malvada gêmea de Odette. Odette morre afogada no lago, sob o feitiço, como Siegfried sonhara. Há diferentes versões sobre o fim de Siegfried. Em algumas o príncipe se afoga no lago com Odette ao perceber o seu engano, e em outras enlouquece. A mesma bailarina dança os dois Cisnes Branco, Odette e o Negro, Odile.

Nina quer ser a Rainha Cisne, encarnando os dois Cisnes. Vive com a mãe e não há referência ao pai. A mãe de Nina não teve sucesso como bailarina, e projeta seu fracasso na maternidade, trata Nina como menininha. O quarto rosa, os bichinhos de pelúcia, o nome, e tratamento (“doce menina”), são como “feitiços”, que acorrentam Nina a mãe, impedindo seu crescimento, e o desenvolvimento do seu Talento. Obcecada pela ideia de perfeição, Nina cultua a experiente Beth como ídolo , mas deve substituí-la, quando Beth é afastada pelo coreógrafo, por estar velha para o papel de Rainha Cisne (Winona Ryder).

A obsessão de Nina pela perfeição engessa seu potencial criativo, como que a predestina ao fracasso. Thomas inflige um golpe ao seu narcisismo, quando a faz ver que estava longe de se tornar uma artista “perfeita”, rejeitando-a (mesmo com sua impecável técnica) para o papel principal, de Rainha Cisne. O coreógrafo, ao qual não falta a dose de “crueldade artística”, a vê como Cisne Branco, mas não como o Cisne Negro.

O filme é genial ao usar a duplicidade do tema do “Lago dos Cisnes” na vida de Nina, a bailarina-protagonista, que precisa, então, encarar aspectos de sua personalidade cindidos (negros a ela), sua sensualidade e feminilidade. Nina é frígida e frágil. Apresenta sintomas que mostram como é dura a batalha interna com esta mãe possessiva e infantilizadora. É bulímica, e arranha a pele, até sangrá-la (na tentativa de aliviar sua terrível ansiedade). Sua técnica na dança funciona como uma espécie de couraça muscular, onde os gestos se tornam precisos, mas desvitalizados. Principalmente, Nina precisa entrar em contato com a sua auto-agressão (os arranhões) e com a destrutividade da mãe, que a mantinha (como o feiticeiro Rothbart) meio criatura, meio humana.

Nina vai fundo na vivência do duplo, encontrando em Lily o seu oposto, como são, no “Lago dos Cisnes”, Odile e Odette. Lily é sensual, usa drogas, come hamburger e faz sexo livremente. É o Cisne Negro.

A câmera segue Nina nas sinuosas fronteiras entre alucinação e realidade, delírios e fantasias. Luta costumeiramente vivida pelo artista, no seu íntimo, ao encarnar personalidades distintas. Mas um desafio artístico desmedido para Nina, dada a sua frágil identidade (pessoal e artística).

O maior triunfo de Nina é se transformar em Cisne Negro. A maneira como atinge esta transformação (antológica imagem) é a surpresa final. Há um custo violento ao atingir a tal perfeição. A Vida reproduz a Arte?

A “doce menina” trava batalha sangrenta com a mulher, sedutora, que cria negras asas. Questão vital para Nina (e para Odette, no “Lago dos Cisnes”).

Comentários sobre o filme, hoje, pela Dra. Fátima Cassis R. dos Santos, homeopata, do Instituto da S.B. Psicanálise de Ribeirão Preto, que atende, assim, ao pedido da plateia - analisar mais uma obra-prima do cinema.


O DIRETOR

Darren Aronofsky

Diretor, roteirista e produtor, Aronofsky fez, em 2000, “Réquiem para um Sonho”, sobre drogas. Em 2008 “The Wrestler”, O lutador, duas indicações ao Oscar. E o “Cisne Negro”, com 5 indicações ao Oscar.

O encontro entre o diretor e Natalie Portman aconteceu 10 anos antes do script pronto. Natalie, que fez dança desde criança e também cursou Psicologia na Harvard, diz o seguinte sobre Nina, o personagem que encarna: “Nina quer a perfeição, o que é algo que somente existe em um momento, breve, fugaz, mas, como qualquer artista, ela tem que destruir ela mesma para achar esta perfeição. Quando tenta se tornar o Cisne Negro, algo sombrio borbulha dentro dela. Vive então uma crise de identidade onde ela não só se mostra insegura sobre quem ela é, como também os limites entre ela e as outras pessoas começam a se borrar. Ela começa literalmente a ver ela mesma em todos os lugares.”

Darren pediu à atriz que interpreta a mãe de Nina, Bárbara Hershey, envolvida em outro projeto e bastante ausente da filmagem, que escrevesse duas cartas para Nina, entregues à atriz Natalie P., em momentos estratégicos. A atriz resume o caráter da mãe: “a mãe ama e tem obsessão pela filha. Quer que tenha sucesso, mas sabe do seu estado mental frágil. É invejosa e quer o mundo para a filha. Quer que Nina voe, mas não quer que ela vá embora.”

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