O rio amoroso

Por: Claudia Filipin

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Anos sem ir a Rifaina, desci um sábado desses. Está tudo muito mudado, a cidade linda e limpa, a estrada mais segura, as pessoas treinadas para bem receber os turistas.

Óbvio que fico impressionada com o fausto dos ranchos beira-rio e com o luxo dos carros e camionetes que por lá circulam. Me irrita um pouco aquele ambiente agro-rural e pick ups berrando sertanejões bravos, mas sei que tudo isso está inserido no contexto. Reparei também em adolescentes trabalhando num sábado lindo de sol, e não senti dentro de mim aquela histeria que brada por justiça social quando o assunto é trabalho infantil. Garotos queimados de sol empurravam barcos e garotas douradas (sem aquela sexualidade que se espera das caboclas) ajudavam os pais em suas barracas de comida. Pode ser muita ingenuidade minha, mas todos pareciam felizes e de boa vontade, sorridentes e pacíficos. Isso me encheu a alma.

Mas o que mexeu mesmo comigo foi o Grande. O Rio, eu digo. Vi-o pela milésima vez, mas só agora pude enxergá-lo, ouvir seus sussurros, vislumbrar seu olhar generoso. O Grande, quase quieto, me pareceu um desses pais italianos gordos e fanfarrões, de olhos azuis e poucos cabelos, que observam com completo orgulho seus descendentes numas dessas festas familiares bastante comuns na Toscana.

O Rio olhou-me por um bom tempo, e esse tempo possivelmente não passou de segundos. Três segundos, talvez. Obtive dele os três segundos de intimidade que amantes de uma vida inteira nunca atingem. Retribui. Dialogamos sobre as mazelas da vida (as nossas rios tem tristezas! - e as alheias), sobre as alegrias conquistadas, sobre sonhos possíveis, quiçá sobre a impossibilidade de sonhar. Sei que esse rio tem algo de bravo e pouco há de calmaria por baixo do cândido tecido que o recobre, mas mesmo assim havia uma ternura no ar, um amor que juntava água e céu e que acabou me invadindo por alguns instantes.

Tenho um padrinho que, na época da Anistia, vivia resmungando: “Deus tirou o mar de Minas, mas deu Tancredo Neves.” Eu mudo isso para “...mas deu o Grande.” O nosso mar doce, acolhedor, afetivo, adornado pelas montanhas. O mar -que é rio! -que se divide entre São Paulo e Minas, e, democraticamente, derrama de suas águas amor suficiente para todos.

Passaram-se os três segundos e tudo mudou .Devaneios são fugazes,apesar de nos tatuarem sensações duradouras.

Abri uma cerveja e começamos, eu e meu parceiro, a fazer uma das coisas que mais nos apetece: filosofar sobre nada. O Grande ali, ainda quieto, deve ter imaginado quão bobos somos nós , quarentona e cinqüentão, órfãos de filhos e propositalmente solitários dos amigos...

Deve ter- se despedido, mais por educação que por vontade, mas, àquela hora, não mais podíamos escutá-lo.

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