Cenas de quase outubro

Por: Eny Miranda

144460

Para Iara Santiago


Um quintal de muitas árvores: eis meu cenário do último domingo.

De novo árvore? Haverão de pensar alguns. Mas árvore não é “de novo”, árvore é, e (Deus o permita) permanecerá sendo, “de sempre”. No calendário, recebe, além de um Dia (o 21 de setembro, no Brasil), uma Semana. O que é muito pouco. Árvore merece um Tododia, um Anotodo, per omnia saecula seculorum.

A tarde caía, quando chegamos. Naquele momento de sol oblíquo, talvez por seus reflexos nas folhas de jade e ferrugem, uma amoreira repleta de frutinhos maduros era o centro das atenções. Na cozinha de mil aromas, um tacho de cobre reluzente aguardava a matéria prima da, então embrionária, geléia de amoras. Ah, as amoras!

Pois estavam lá, à nossa espera, naquele quintal de mil e um tipos de árvores folhais, florais, frutais... E, entre esses exemplares terrenos, portanto, finitos, o motivo do convite, e de nossa ida: um espécime que une Terra, Céu e Homem ab ovo, desconhecendo, pois, cronologias: árvore-ponte, árvore-elo, arco-íris marrom-verde-branco-preto. Por ela, por sua visão e sabor denotativos e conotativos, viajamos quase duzentos quilômetros. Na verdade, eram duas delas, ambas repletas de nigérrimas esferas de memórias e açúcares; pérolas-meninas que lhes subiam pelo tronco e lhes cobriam os braços, como incontáveis colares e pulseiras abarrotados de infância: as árvores jabuticabais.

Sim, estava tudo lá, à nossa espera: desde a mineiríssima amizade, igualmente ancorada em profundas raízes e desvelada no cafezinho com queijo meia-cura, servido no balsâmico aconchego da cozinha, entre risos abertos e saudades encobertas, até a infância perdida no tempo e reencontrada no quintal ensombrado de mil folhas e frutos. Tudo lá, exceto os antigos medos: os uivos ferozes das tempestades de vento e granizos, os abacateiros e cajueiros arrancados desde as raízes... Nada do medo “mais escuro que os ciprestes / ecos no mato passos sobre a ponte”, de Marina menina.

Lá, só música; só melodias reunidas entre o aroma da canela ainda no pé, o roxo-escuro-quase-negro das amoras maduras - que enodoam em delícia mãos e bocas, e pintam de mel vinhoso as paredes do tacho que ferve seus sumos - e o sabor da infância, revivido em cada luzidia negra pérola que enfeita uma jabuticabeira a dar e a dar-se à luz.

Se é verdade (porque há quem o afirme) que toda matéria é música em estado sólido, lá estava uma das mais amoráveis cenas sinfônicas que já pude ver, tocar, saborear, neste quase outubro, e - vou mais longe - em minha vida.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras