Por que não eu?

Por: Jane Mahalem do Amaral

“Ando desnorteada, sem compreender o que me acontece e sobretudo o que não me acontece.”

Clarice Lispector


Ainda que estejamos supostamente preparados para o impacto da má notícia, o câncer de Reynaldo Gianecchini causou perplexidade. Será que por ser bonito, jovem e artista deveria ter um privilégio diferente das outras centenas de pessoas acometidas pelo mesmo mal? Começam as perguntas sem respostas, pois ninguém pode explicar por que foi ele o escolhido.

Acaso, destino ou Providência Divina? Dizem que acasos não existem, que se alguma coisa aconteceu exatamente naquele momento, com aquela pessoa ou naquele lugar é porque algo maior e mais poderoso assim encaminhou: foi Deus é que assim quis. Outros juram que a vida é feita de pura coincidência. Outros ainda defendem que todos nós temos um destino traçado.

Alguns fatos nos deixam perplexos e, por mais que queiramos nos convencer de algo razoável, a dúvida sempre aparece. E a pergunta feita lá no fundo do nosso ser busca uma resposta lógica, quando, simplesmente, essa lógica nós não a conhecemos. A questão é que enquanto não acontece comigo, vou ficando apenas na perplexidade, mas quando a história se torna pessoal e intransferível, creio que normalmente nos vem a pergunta: Por que eu?

Tenho uma dívida de gratidão com minha médica no dia em que ela inverteu meu raciocínio e me fez aprender o fundamental. Estava eu levando um exame de mamografia, apenas feito como rotina, quando ao anunciar-me o resultado de que tudo estava normal, eu respirei aliviada, julgando-me, naquele momento, acima de qualquer mal. Ela, então, me olhou com carinho e me disse: os que recebem um resultado de tumor maligno, a primeira pergunta que fazem é: Por que eu? E quando tudo está dentro da normalidade também deveríamos nos perguntar: Por que não eu?

Essa reflexão provocou em mim o sentimento de humildade, gratidão e igualdade. Acho que é isso que devemos nos perguntar ao ver no outro a dor e a doença. Somos todos iguais e por que a vida me protegeu? Acaso, coincidência ou Providência Divina, não importa. A verdade é que só por estarmos bem e saudáveis já recebemos uma graça. Nós temos a indelicadeza de nos agarrarmos às nossas pequenas felicidades e nos acharmos intocáveis. A consciência de estarmos todos no mesmo barco, correndo os mesmos riscos simplesmente porque somos iguais é que nos dará a dimensão da verdadeira identidade, nos levará à consciência de uma individualidade única que ora premia um, ora outro. Por que não eu? É uma reflexão de humildade e aceitação. É fundamental que possamos unir essa força de seres iguais e pedir ao Pai pela saúde de Gianecchini, pois ele já nos fez rir, chorar, nos deu momentos de beleza, leveza e arte. Por ter recebido tudo isso, eu também devo a ele alguma coisa de bom e, nesse momento, posso contribuir com meu carinho, minha fé e meu desejo sincero de vê-lo restabelecido.

Há respostas religiosas, filosóficas, céticas e até simplórias para todas essas questões e são elas que vão empurrando a vida, cada um acreditando naquilo que lhe faz bem (ou menos mal!). Eu prefiro ficar com a clareza e o discernimento de Clarice Lispector: “Ando desnorteada, sem compreender o que me acontece e sobretudo o que não me acontece.”

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