Satélite versus Hipotecário

Por: Mauro Ferreira

Nas férias de julho, passei uma semana em São Paulo, batendo perna, visitando amigos, museus e livrarias, não necessariamente nesta ordem. O Vicente, compadre do meu concunhado Paulo Serra Negra, topou ir comigo ver um jogo de futebol no estádio do Pacaembu, aonde eu não ia desde 1973, quando vi Pelé jogar.

Foi um jogo de poucas emoções, um 0x0 xoxo entre Flamengo e Palmeiras. Os jogos da Prudentina eram bem mais emocionantes. No entanto, reviver a emoção de assistir um jogo com platéia lotada me fez notar as enormes diferenças de quarenta anos atrás. Primeiro, o cheiro de maconha na arquibancada, cuja intensidade me fez lembrar os banheiros da universidade. Os gritos de guerra da torcida, antes de incentivo, hoje são apenas palavrões que terminam em p%$# que p&*%riu ou vai tomar no #@. Quem assiste apenas pela TV não escuta claramente o que cantam as torcidas, é inacreditável o mau-gosto e a falta de educação.

Terminado o jogo, quase meia-noite, subimos a pé com a multidão, cortando pelo bairro do Pacaembu até a avenida Angélica, mesmo porque o trânsito estava todo paralisado. Quando pisei o chão das vielas de um dos bairros mais elegantes e charmosos da capital, elas estavam escorregadias. Estranhei, pois não havia chovido. Apenas pelo cheiro percebi que era urina, milhares de pessoas pisoteando merda e mijo, era tão grotesco que chegava a ser engraçado ver senhores bem-vestidos e tênis de marca que custam seiscentos paus chafurdando naquilo.

Lembrei do campeonato de futebol dos bancários aqui de Franca, que meu pai costumava me levar para assistir nos anos 60. Ele defendia o time do banco Hipotecário, que jogava contra o Satélite (Brasil), Induscômio (Indústria e Comércio), Minasbank (Mineiro da Produção), Moreira Salles (Unibanco), Hércules (Crédito Real), BBC (Bandeirantes). Destes, só restou o Banco do Brasil, todos os outros foram engolidos por tubarões maiores. O apelido do time, pasmem, era do endereço telegráfico, o meio de comunicação mais ágil da época.

Daquela vez, o jogo foi no campo do Fulgêncio Esporte Clube, que ficava onde hoje está o prédio da prefeitura. Eu fiquei assistindo o jogo das arquibancadas, quando deu aquele aperto para ir ao banheiro. Não havia banheiro para o público. Tive a ideia de olhar pelas frestas da arquibancada, que era toda de madeira apodrecida. Lá embaixo, entre os pilares de sustentação, dava para ver que o chão era usado como banheiro também, era só merda, igual lá no bairro do Pacaembu. Seria o karma daquele lugar?

Passei um aperto danado, mas consegui agüentar até o final do jogo. Pelo Satélite jogavam, se não me engano, o Roberto Engler e o Hélio Rubens. Meu pai, com uns quarenta anos, ainda tentava jogar meio tempo, mas não tinha mais fôlego. Além da idade e do despreparo físico, pesava o cigarro.

Não lembro quem ganhou. Só lembro que cheguei roxo em casa, direto ao banheiro para fazer xixi num banheiro reluzente e limpo.

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