A era das delicadezas perdidas

Por: Everton de Paula

Mal a orquestra iniciava os acordes no baile de formatura, os rapazes de terno escuro e gravata borboleta atravessavam o salão e convidavam a moça pra dançar. A música, de costume, era romântica e a fraca luminosidade permitia que o globo de cristal emitisse raios, fantasiando formas nos ares. Perfume suavíssimo, salto alto, rosto a rosto, promessas e juras, falsos namoros, olhares cúmplices, leveza... Os sussurros eram ouvidos e os casais tomavam o rumo que o destino lhes traçaria.

Nas ruas, sob a luz do sol ou da lua, dizia-se bom-dia-boa-tarde-boa-noite a quem quer que fosse. E o dia seguia seu rumo, sem grandes sustos nem competição. A cada um era servido o lugar devido, o diálogo apropriado, a entrega prometida, o compromisso assumido. Nada de pressa; apenas cumpria-se o dito.

Os homens vestiam terno e gravata para o jogo de futebol.

Vizinhos se respeitavam independentemente do status social. Noitezinha, a janela para a calçada se abria e ali conversavam por horas as mães dos meninos que brincavam sossegados nas ruas calmas.

Serenas eram as noites. E madrugadas de sábados formavam o quadro ideal para as serenatas. Ah, estas! Inesquecíveis encontros de amigos madrugada adentro, um violão, uma flauta e a voz dos enamorados. A moça, sugerindo recato e grata emoção, acendia uma lâmpada do alpendre ou apenas piscava a luz uma ou duas vezes para sinalizar que estava ouvindo a seresta.

Visitas! Familiares, amigos, vizinhos tinham o hábito de se visitarem. Sempre à noite, já que não havia televisão ou outros afazeres noturnos que pudessem impedir tão saudável e fraterno encontro.

Troca de receitas, diplomas de honra ao mérito nas escolas, as mãos dadas dos namorados nas praças ou no escurinho do cinema... O respeito nos atos cívicos, religiosos ou fúnebres... A admiração aos antepassados, talvez lição aprendida nas aulas de História...

O almoço e jantar só tinham início após o pai se sentar à mesa. E nos lares onde imperava a religiosidade, não faltava, antes da alimentação, uma brevíssima oração de agradecimento ao Pai pela mesa posta. Ou ao menos uma persignação!

As delicadezas... O respeito ao próximo chegava a tal ponto que se fazia sentir na própria linguagem daí imperarem os eufemismos. Não se pronunciava a palavra “câncer”, por exemplo, mas sim “fulano está com aquela doença”. Ninguém morria: passava-se desta para melhor, ou simplesmente entregava-se a alma ao Altíssimo.

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Numa recente aula de Oratória, fiz alusão a esses costumes. Um jovem pediu a palavra e, de forma um tanto irônica, perguntou: “Como é que vocês sobreviveram?”

Com efeito, cada tempo com seus costumes. Só que a nossa geração viveu um tempo que a própria História denomina de “anos dourados”, época de ouro. Não apenas pelas big bands, pelo pós-guerra, pela música romântica, pelo respeito ao próximo, pela educação no trânsito, pelo amor fraterno na família, pelas novidades que surgiam aos poucos, gradualmente, dando-nos tempo de nos acostumar a elas... Não apenas por isso, mas especificamente pela delicadeza com que se levava o cotidiano.

Hoje impera a espantosa velocidade das inovações, da tecnologia, dos cursos profissionais rápidos, dos casamentos que duram dois ou três meses (quando há casamento registrado!); nos salões, a música é altíssima, o ar pesado, e não há proximidade entre os casais. Programa que é programa mesmo tem que “rolar” sexo, droga e violência, numa velocidade que se vê simbolizada na própria velocidade dos carros nas madrugadas assassinas, ávidas por vidas jovens... E numa gritaria selvagem que, nem de longe, lembra a suavidade de uma canção romântica sussurrada na janela da pretendida.

Decididamente, vivemos a era das delicadezas perdidas!

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