Insônia

Por: Marco Antonio Soares

É tarde, o rolar na cama de um lado para o outro lhe dá prazer momentâneo. De repente, seus pensamentos iniciam aula, cuidam da letra, dispõem o assunto, organizam começo, meio e fim. A explicação é minuciosa, lenta, a cobrança é rápida. O quadro verde, porém, cresce à sua frente, as letras giram em ciranda, todos os ouvintes estão dispersos, todos os alunos conversam, a voz torna-se engrolada. Acorda. O cochilo durara segundos, mas a sensação é de horas.

Entrelaça os dedos que servem de apoio à nuca. As pálpebras cerram-se lentamente. Uma sensação de entrega envolve-lhe a alma, todavia problemas corriqueiros tilintam o telefone, soam a campanhia, esmurram o metal do portão. Os sobressaltos o atingem, sacodem-lhe o espírito. Acorda. A sensação de entrega dura segundos, o baticum de seu coração é de horas.

Põe-se de pé, liga o computador, a tela ao fundo é toda verde, campeia algo. Inútil. Nenhuma idéia germina ali.

Exausto, desliga a máquina. Fria, a cama o aguarda. Recorda o dia em que a mãe o fez recitar o Pai-nosso, põe-se em oração.

E, entre perdoar àqueles que ofendera e o amém, Deus se apieda, cobre-lhe os ombros e lhe esparge sono profundo.

A sensação de cansaço é enorme, as horas são poucas, mas adormece.

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