Por que escrevo

Por: Heloísa Bittar Gimenes

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Queridas mães, bom dia! Talvez eu não precise perguntar como vocês estão, porque minha própria resposta pode ser suficiente para todas nós: estamos seguindo a vida, buscando diariamente maneiras para driblar a saudade, contornar o vazio.

Penso que ao nascer fazemos parte de uma família constituída pelo laço sanguíneo; depois vamos encontrando pessoas pelo caminho que de alguma maneira, também nos ajudam a ser gente e por isso se tornam familiares, não pelo parentesco, mas por eleição. Hoje, nós mães que tivemos que, permitir que nossos filhos abrilhantassem o céu, constituímos uma família. Porém essa nova família formada, não o é por opção, pois ninguém em sua sã consciência a ela quer pertencer, mas infelizmente é de fato, é real e está muito além de nossas escolhas. Percebi que a chegada de mais um membro nos fazer reviver tudo aquilo que gostaríamos de esquecer; aí diante do caos nos tornamos solidárias umas com as outras, pois sabemos exatamente onde cada uma se encontra nos seus sentimentos. Acho que é por isso que escrevo, para registrar em palavras todo o nosso percurso, já que sabemos que não fomos as primeiras e nem seremos as últimas a testemunhar a dor da perda; assim nos conforta perceber que se é e foi possível para uma, então há esperança.

A maternidade de início exige desprendimento, é o próprio exercício de amar sem ter, de querer e nem sempre poder, de esperar e nem sempre encontrar. É um ato de coragem, pois temos que confiar naquilo que cremos e não somente naquilo que vemos. Para sermos mães precisamos saber amar à distância. E na nossa situação em específico é evidente essa distância, é evidente o nosso amor. E como amamos, não? Na ausência a presença do filho amado é muito maior, sem dúvida nenhuma.

A lente pela qual enxergamos o mundo muda totalmente quando os filhos chegam e revira quando estes vão embora. Creio que devemos aprender com isso. Não dá para ser a mesma pessoa depois dessa tempestade. Ainda não sei bem o quê, mas passar por esse percalço deve ter um propósito; quem sabe o tempo nos ajude a entender? Até para os amigos de nossos filhos serve como reflexão, pois entenderam que jovens também entram no reino do céu.

Deus tem se mostrado presente na nossa vida. Acredito que Deus seja essa força maior dentro de nós mesmas que nos permite seguir em frente mesmo que mutiladas. Pode ser Ele todas as justificativas e perspectivas que nos fazem diariamente levantar. Cada qual à sua maneira estamos aqui dando testemunho vivo de que a dor é imensa mas não nos faz morrer. Acreditar que somos muito mais que “corpo” diminui o fardo e desvia nosso olhar para o Divino.

O trabalho também tem sido um bom companheiro, um bálsamo. Algumas horas do dia consigo deixar “minha menina” descansando em mim. Imagino que o tempo vazio, sem afazeres, faz ecoar ainda mais a ausência, haja vista os sábados, domingos e feriados. Só quem passa entende o que falo.

Continuar amando os que aqui ficaram, inclusive dando voz aos nossos projetos é um desafio, mas fundamental. A saudade nos faz ancoragem e temos a tendência de olhar para o infinito em momentos barulhentos à nossa volta, perceberam? Sintonizar com o presente é difícil , traz culpas, mas o que nos resta?

Tropecei várias vezes numa pergunta: Quantos filhos você tem? Nossa, o quê responder ? Agora compreendo que a maternidade se torna um “verbo” que só conseguimos conjugar no presente. Quem foi sempre será, quem teve sempre terá.

Enfim nossa caminhada é longa e precisamos buscar fôlego. Da notícia arrebatadora até o presente conseguimos levantar. Não dispensamos as lágrimas que molharam e ainda molharão nosso cultivo de fé na vida e na espiritualidade. Sorrir é um direito conquistado por nós depois de tudo isso; mesmo se for apenas para esconder o que porta nosso coração. Estou convicta de que se houve pecado, pagamos; se houve resgate, resgatamos. Ainda quero crer que a vida possa ser generosa conosco. Abraços apertados a todas vocês, em especial para Edilamar (Kadu), Luzia (Marcos Vinícius), Adriana (Rafael) e Sirley (Felipe).

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