Baixinho e Joaquinzão

Por: Chiachiri Filho

Pelo menos uma vez por ano sou obrigado a ir à Unesp. Vou com muito prazer. Vou para provar que estou vivo e apto a receber a minha aposentadoria. Dirijo-me ao RH onde a Maria espera-me com um amplo sorriso. Peço-lhe que me belisque e, assim, certifique a minha existência. Ela ri, manda-me assinar alguns papéis e despede-me na certeza do meu retorno no próximo ano.

O passar do tempo faz-me sentir cada vez mais estranho dentro da Unesp. Aqueles blocos quadrados de concreto entremeados de grama, aqueles longos corredores, aquelas pessoas circulando não me dizem nada, não me trazem recordações. Logo na entrada, sinto falta do Baixinho e do Joaquinzão. Edson Machado, o Baixinho, cansado de ser motorista, acomodou-se no cargo de porteiro da Faculdade. O mesmo fez Joaquim Raimundo Pereira, o Quincão , pedreiro de profissão. Joaquinzão era alto e bigodudo. Seus olhos negros faiscavam por entre as pálpebras semicerradas. O Baixinho era muito ligeiro . Seus olhos miúdos e arregalados revelavam perspicácia, franqueza e espontaneidade. Ambos eram pessoas de fino trato, educadas e prestativas. Joaquinzão e Baixinho representavam também o clima da Faculdade. Se o ambiente estivesse calmo, eles ficavam alegres e descontraídos. Caso contrário, permaneciam silenciosos e precavidos.

Ao entrar na Unesp, eu sempre passava pela portaria. Conforme o aspecto dos porteiros, sabia o clima que me esperava. Se alegre, cumprimentava-os e entrava direto E desarmado. Se soturno, encostava-me no balcão e esperava a sua aproximação . Joaquinzão, após morder várias vezes o bigode, falava em tom de confidência:

-Dr. Chacha, a coisa aí dentro está fervendo. As bruxas estão soltas, Dr. Chacha!

Baixinho, pouco atrás, com os olhos mais arregalados ainda, confirmava:

-Chacha, cuidado pra não derrapar!

Com o Baixinho e o Joaquinzão na portaria, eu me sentia mais seguro. Eram pessoas de minha confiança. Eu não compraria uma casa sem o parecer do Joaquinzão. O Baixinho acompanhou-nos na política e foi o primeiro suplente de Vereador do Grupo Novo.

Hoje em dia, ao entrar na Unesp, sinto-me um estranho no ninho, no velho ninho que ajudei a construir Faltam o Baixinho e o Joaquinzão, cara e termômetro da entidade. Faltam vários outros amigos e colegas. Felizmente ainda há uma voz , a do Sapinho, que, vez por outra, grita o meu nome:

-Chacha, Chacha! Você anda muito sumido.

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