Encontros e despedidas

Por: Jane Mahalem do Amaral

Para Heloísa Bittar Gimenes

“Assim chegar e partir são só dois lados da mesma viagem
O trem que chega é o mesmo trem da partida...
A hora do encontro é também, despedida...”

Milton Nascimento


A metáfora de Milton Nascimento nos traz a vida na plataforma do trem. A dualidade e a diversidade presenciam, na estação, a chegada e a partida num ritmo incessante: nascimento e morte se alternam, moldando esperanças e desfazendo sonhos. A chegada de um filho tem o brilho da alegria, enquanto a partida inesperada desse mesmo filho cobre de sombra o incompreensível e desajusta qualquer pensamento lógico.

O que vivemos neste curto espaço de tempo que habitamos neste corpo e neste planeta é intenso e quase sempre incompreensível. Nossa eterna mania de tudo querer analisar com olhos lógicos só nos deixa mais confusos. Sentimo-nos sempre separados do Todo e por isso dividimos e classificamos tudo que vemos. Quando caminhamos com os pés na água do mar podemos sentir essa união e divisão ao mesmo tempo: o mar está ali e eu estou, naquele momento, dentro dele. Mas eu sou eu e o mar é o mar. Quando eu quiser sair, eu o deixarei e aquela ligação, penso eu, também terminará. Difícil compreender que o mar também sou eu, a água é parte da energia vital que circula fora e dentro de mim. Não estamos separados de nada e daí aquela verdade da grande teia universal onde um ruflar de asas de uma borboleta, do outro lado do mundo, pode modificar minha pequena vidinha do lado de cá. Tudo e todos nós estamos interligados, não só no hoje, mas também no ontem e no amanhã.

Se assim conseguíssemos pensar, então poderíamos ver essa plataforma do trem que é a vida: “tem gente que vem e quer voltar; tem gente que vai, quer ficar, tem gente que veio só olhar, tem gente a sorrir e a chorar.” e “ todos os dias é um vai e vem, a vida se repete na estação...” E nós, na maioria das vezes, queremos prender, segurar esse movimento porque não aceitamos a partida daqueles que amamos... Festejamos a chegada, mas o que dizer da solidão que fica com a ausência?

“ Tem gente que vai para nunca mais...” Não, com certeza, não é um nunca mais... O que seria o tempo nesse imenso universo todo interconectado... ? “São só dois lados dessa mesma viagem..” Não há tempo linear, já está provado. Então, também o tempo da saudade é relativo. Iremos todos viajar nesse trem, só não podemos planejar o dia da nossa partida. Mas desde agora, já sabemos que vamos nos rever. E assim, posso combinar com a tristeza para que ela também aguarde o fluir dessa energia que vai e vem e, quem sabe, posso trazer de volta a alegria e a certeza do reencontro. “O trem que chega é o mesmo trem da partida...”

Com letras de outra dimensão, (por que não?) eu vou escrever um e-mail que atravessará mares e céus: “Mande notícias do mundo de lá... Me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando...”

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