Disgreta

Por: Luiz Cruz de Oliveira

A construção do terminal de ônibus ali na Praça do Correio alterou fundamentalmente o fluxo de pessoas nas ruas do centro de Franca. É como se alguma lei houvesse criado dois corredores um na Rua Marechal Deodoro, outro na rua General Teles pelos quais transitam muitas pessoas.

Desalojado do antigo ninho, tentando adaptar-me a galho de árvore muito alta, virei transeunte daquelas vias, esforçando-me para me adequar a costumes atuais e estranhos para mim.

Esforço-me e aprendo.

Aprendo a ouvir intimidades: a mulher conversa ao celular, relata a alguém aventuras da noite anterior.

Aprendo a guardar segredo: o rapaz explica a alguém ao telefone que ninguém pode saber de seu caso com a vizinha, que o marido dela, além de ciumento, é extremamente violento.

Aprendo a conviver com sustos e sobressaltos. Não é raro alguém gritar ofensas e palavrões à minha nuca. Encaro o sujeito, ele sequer me vê, passa por mim, xingando alguém através de ondas...

Aprendo a resgatar vocábulos.

A mulher grita atrás de mim, levo susto, pensando que fala comigo. Acalmo-me quando ela passa, ignorando-me e às pessoas em quem esbarra. Apresso o passo, encomprido as orelhas, mas quase toda conversa se perde no burburinho da manhã. Sobra-me, feito o expurgo das palavras de baixo calão, apenas este pedaço de frase:

- estava chegando no portão quando a disgreta passou...

Mulher, voz e telefone se perdem em meio a pessoas e telefones e vozes, deixando-me às voltas com lembranças infantis um tempo em que algumas palavras eram proibidas. Desgraça era uma delas, o maior de todos os palavrões, que remetia à ausência da graça de Deus, o pior que poderia acontecer a alguém.

Há muito tempo não ouvia a palavra disgreta. Peço à amiga para que consulte o dicionário, ela informa que o Houais não anota o vocávulo. O meu cérebro, no entanto, registra: disgreta é irmã de disgrama e de disgrameira variantes de desgraça.

Neste mundo moderno, com mais telefone que gente, levo a vida assim: ouvindo, aprendendo, ensinando.

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